Nas últimas semanas fomos inundados por uma sigla que, tendo feito caminho nas altas esferas, ainda não se tinha intrometido tão universalmente no quotidiano do nosso falar: Ci-I-Ou, assim mesmo ouvimos o que na língua inglesa se escreve CEO. Tive a sorte de, num dia destes, alguém, provavelmente ainda mais agastado do que eu, desabafar, em plena arena televisiva, que já não aguentava ouvir a fastidiosa repetição do Ci-I-Ou dirigida à Diretora Executiva da TAP, entretanto demitida. Também me sentia longe do ceo que figurava na grafia portuguesa antiga como o céu de hoje.
Confesso que tenho perdido quase todas as batalhas a tentar bater-me por um idioma não colonizado. Serei mais um vencido da vida, mas os meus desqualificados botões, ensimesmados como estão, continuam a perguntar o que custa falar direito, bem traduzido, sem usar palavras de outros idiomas, quando as temos com fartura para dar e receber.
Vejam como são as coisas: CEO é a sigla inglesa de Chief Executive Officer. Isto é, Diretor Executivo. Está tudo clarissimamentemente dito. Não sabem traduzir? Mas todos sabemos que os Diretores Executivos ganham rios de dinheiro; eles mais as equipas que chefiam. Rios de dinheiro será dizer pouco; há casos que enchem oceanos para desaguar em paraísos fora de qualquer pé. E ainda têm direito a prémios, bonificações, logísticas e, se for o caso, indemnizações. Tudo em chorudo, híper, mega, tudo o que se possa imaginar nas redondezas do paraíso. São um descanso para os acionistas como fabricantes de gigalucros e até um sonho para quem se reformar do Governo.
Entretanto, há designações superlativas utilizadas nos discursos (i)mediáticos, em especial no desporto, que valerá a pena convocar: galático e estratosférico. O deus dinheiro contemplou-os com status que em muitos casos até superará o nível dos tais CEO a que negam tradução.
Há até um confronto nas fontes (i)mediáticas sobre qual atingiu o estatuto socialmente mais elevado, se o do nível estratosférico se o do galático. Esta última designação foi içada em Madrid a propósito da transferência do jogador português de futebol Luís Figo do Barcelona para o Real. Os adeptos do clube catalão chamaram-lhe “pesetero”, enquanto os dirigentes madridistas faziam gala de terem passado a contratar jogadores de outra galáxia. Qual galáxia não disseram. Nem a Via Láctea, que está mais à mão, quiseram trazer para o palco. Preferiram deixar a coisa lá para os lados do infinito.
Presumo que foi nestas entrelinhas que alguém se lembrou de puxar a estratosfera para o caso. E aí fiquei banzado. Não era possível comparar a distância a que se encontram os dois níveis, o que demonstra o grau de ignorância que campeia nestes domínios. A sagrada televisão inventa-os, acolhe-os, dá-lhes guarida e dissemina-os para que façam parte dos códigos do nosso falar.
Sobre galático já estamos conversados. A altura é abissal e só a matemática consegue ligar-nos a tais infinitos. O problema é que o nível estratosférico nem por sombras se aproxima do abismo galático. Conforme a latitude, podemos abrir as suas portas entre 7 e 17 quilómetros de altitude da nossa poluída baixa atmosfera e é mesmo ali que acaba a troposfera dos fenómenos meteorológicos comuns e começa a estratosfera onde a camada de ozono nos defende da banda mais nociva da radiação ultravioleta. Vai até uns meros 50 quilómetros, onde começa a mesosfera. Cá em baixo, é como ir até um pouco para lá do Fundão. Enfim, confusões do nosso (des)comunicar.