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Cata- Ventos: Sobre a desonestidade no século I

Costa Alves - 09/06/2016 - 9:13

Dizia o poeta Décimo Júnio Juvenal, em texto que lhe é atribuído, que “uma pessoa verdadeiramente íntegra é vista como um prodígio”. O autor de “Sátiras” nasceu em Aquino entre os anos 55 e 60 e faleceu em Roma no ano de 127.

O leitor fará o favor de registar, passados 20 séculos, a atualidade de uma afirmação que, tão no fundo do passado, assim fala de como somos hoje e da deriva em que nos vamos perdendo de caminhos. Juvenal utiliza a sátira para criticar radicalmente a sociedade do seu tempo e parece que se refere ao nosso. Fala, por exemplo, de “pessoas [que] moram em gaiolas para coelhos a preços exorbitantes” e de realidades aparentemente incríveis como as que permitem colocar a nossa civilização do automóvel ao mesmo nível da de uma Roma também exuberante de ruas condicionadas onde, reporta, “já não se pode circular”.

E não seremos os primeiros habitantes de Lisboa ou do Porto a confessar, como Juvenal, que, “quando penso no que Roma se tornou, fujo para longe.” Para longe do “mau gosto [tornado] sinónimo de requinte”; para longe de um quotidiano onde “o idiota passa por genial”; para longe, como também diz, de “cantores medíocres [que] são vistos como estrelas”. Assim escrevia Juvenal e parece que falava de agora.

Vinte séculos decorridos, este mundo é de muitos tecidos por muito poucos tecido e, quem pensa que se salva como eremita, fugindo, não ajuda a salvar a vida dos não-eremitas que persistem e tentam resistir para produzirem mudanças. Como bem sabemos, há uma outra espécie de pessoas que procura o seu paraíso em paragens da mais impura moralidade, pagando-se vencimentos impensáveis e mordomias indecentes guardadas nas caves anónimas de paraísos fiscais espalhados por esse vasto mundo com tantos infernos intrometidos.

Ora continue a seguir as palavras de Juvenal. Nos século I e II, em que decorreu a sua vida, “mesmo os crentes já não creem na virtude” e “já ninguém tem palavra porque todos perderam a fé”. Por isso, “não nos devemos surpreender que a desonestidade seja geral”, pois, “agora, um tipo verdadeiramente íntegro é visto como um prodígio”. A sociedade de hoje apresenta outras designações pouco veneradoras do comportamento de um tal “prodígio”, mas continuo a sublinhar a atualidade destas afirmações seguindo as trajetórias de bancos e banqueiros cruzados e entrecruzados, repetidamente, com grandes empresários e políticos que se alternam, promíscuos, como gestores.

Também na Roma Imperial se colocavam já interrogações tão atuais como as que colocamos nos dias de hoje. Outro exemplo: chegavam ao extremo de se perguntarem sobre “quem vai vigiar os vigias”. Nos dias de hoje, também não temos capacidade para vigiar quem tem a responsabilidade de vigiar, para mais quando o poder real não está na nossa casa, nem no nosso país. Está tão escondido que é quase impossível ou inútil saber onde está.

Veja o leitor como são as coisas. O discurso profundo vindo dos séculos, como o das “Sátiras” de Juvenal, é sensivelmente o mesmo e a evolução dos modos de produção e de utilização das ciências e tecnologias não veio alterar os seus fundamentos. Este discurso da vida quotidiana da sociedade mais avançada de há 20 séculos garante-nos que palmilhamos as mesmas ruas da amargura, com o mesmo desconforto físico e espiritual, com as mesmas manobras da desonestidade organizada, com a mesma falta de exigência e de sentido do bem comum e com a mesma utilização da palavra com falta de palavra.

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