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Cata Ventos: Os sonhos não têm rugas

Costa Alves - 07/07/2016 - 16:29

De hoje a uma semana, 14 de julho, às 18 horas, será apresentado no Cine-Teatro Avenida um livro editado pela “Oficina do Livro” com este título vibrante: “Os sonhos não têm rugas”. Escrito por Maria do Rosário Gama, António Betâmio de Almeida e Ângela Dias da Silva, dirigentes da APRe!, condensa a vasta experiência de relação com os problemas dos aposentados, pensionistas e reformados, desde a criação da associação em dezembro de 2012. 


Nascida de um apelo público apresentado por Maria do Rosário Gama em outubro de 2012, a APRe! acumulou experiências e experiência associativa, “histórias vividas” sobre “o desafio do envelhecimento” e capacidades de representação e de intervenção face aos programas neoliberais de imposição da austeridade à sociedade portuguesa e, de um modo particularmente escolhido, a este setor tão vulnerável. 


Como nota José Pacheco Pereira no prefácio do livro, a política da União Europeia, e do seu governo no nosso país, gerou “o abandono de todo o ‘conforto’ dado como adquirido mas também dificuldades da vida, numa altura em que lhes era impossível encontrar alternativa.” 
O livro recolhe testemunhos de pessoas que esticam as pensões até aos filhos e netos, que refletem sobre as problemáticas do envelhecimento e se interrogam sobre as respostas ao aumento da esperança de vida que deixaram de o considerar um adquirido civilizacional para o apresentarem como um fardo que a sociedade deve descartar. 
Confessa um dos testemunhos que envelhecer deve significar “amar cada vez mais a vida, sentir uma enorme satisfação por ter realizado alguns sonhos, ter a compensação de ter uma família feliz e, ainda que nem sempre, a capacidade de me rir de mim própria”. 
Mas não é isso que está a significar nem o que está a acontecer. Por exemplo, há quem procure um lar de idosos porque a casa onde o casal mora é muito apertada para o filho e os netos que tiveram de abandonar a residência, depois de ser remetido para o desemprego. Diz este avô: “não é suposto criarmos os filhos, eles saírem e um dia voltarem, com a prole deles e sem mais nada.” Vários depoimentos denunciam esta viragem para o empobrecimento na evolução do país pois a vida dos seus descendentes tinha melhorado relativamente à da sua geração.
Há depoimentos que vêm do desespero: “Matar ou suicídio? Roubar ou deixar de assumir compromissos bancários e esperar pelas execuções e penhoras da pensão? Deixar de pagar a renda de casa e ir viver e dormir para o carro? Acho que milhares de portugueses fazem ou farão, a curto ou a médio prazo as mesmas perguntas.” Estamos num caminho em que, como defendem os autores, “o envelhecimento activo não deve fazer esquecer que a qualidade de vida dos idosos, em particular dos reformados, só pode ser assegurada de verdade se forem garantidas as condições económicas suficientes para tal. Um problema em Portugal, um país onde a maioria das pensões tem um valor muito baixo” e onde também se morre de indiferença, seja na esfera da falta de cuidados da família ou das instituições do (muito diminuído) estado social. 
Enfim, “os sonhos não têm rugas”. E os sonhos que não têm rugas possuem o poder de gerar ideais e idealismo, cidadania e persistência, usufruir a riqueza da vida sem os valores deste deus dinheiro que nos diminui. Mexendo num poema de Cecília Meireles citado no livro, podemos morrer de velhice, de acidente e de doença, não podemos morrer de indiferença. Os sonhos não têm rugas em todas as idades. 
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