ALBICAST(R)O. Onde as pedras desenham a encosta / e as oliveiras testemunham a paz // Uma linha de luz que freme e rola / na solidão do longe ao lado larga. // As fréseas da infância no sol-posto / como poema anterior à escrita, // E entre granito o amanhecer: o sopro / calmo das velhas ruas velhos sítios. // Amuralhada no seu estar dormida / de branco lenço ao peito a castelar - / uns olhos ficam tristes por partir, / uns olhos partem tristes por ficar.
ANOS SE LEVA. Anos se leva a descobrir a pátria: / a terra onde existir p’ra sempre a salvo, / o barro que há-de modelar a alma, / a língua a ser sabida a ser falada. / E que os rios e serras e que mares / e que cidades grandes ou lugares, / que plantas animais vão habitar / essas paisagens virgens a brotarem. // Porque o amor - uma conquista lenta - / precisa de passado e de presente / quando constrói os elos do futuro; // que a pátria seja em ânsia toda a gente - / de mãos nas mãos e olhos indif’erentes / a quem não queira partilhar o fruto.
A POESIA. Difícil, estreita passagem, / força quente perscrutada, / corpo de névoa, de imagem, / com sulcos de tatuagem, / voz absoluta escutada... / Destino de aranha, tece / com fios vários da vida/ alegria se amanhece / ou chora se a luz fenece / pela noite perseguida. / Intimidade exterior, / pureza de impuras formas, / conhecimento e amor, / água límpida, estertor, / sem regras feita de normas.
PEQUENO HINO A JUNHO. Pródigo, junho luz: prenhe de sol / reclinado na terra a estremecer / e lampeja d’instinto e languidez, / cheio de cio a violar as polpas / dos frutos verdejando nas ramagens. // Derrama o seu calor aureolado / de cânticos dispersos na paisagem: / beija corolas que depois desflora // e pela noite encanta-se cansado / com o púbis em flor das alcachofras.
RIO VELOZ. Rio veloz do meu entardecer / onde me levam tuas águas mudas? / a que mar correm no agraz murmúrio / do leito que abre fendas a cederem? // porque se calam estes lábios dúcteis / esta boca moída que pragueja / contra a cor transparente da tristeza / contra a luz frouxa que reluz inútil? // Os ramos secos tombam nos lameiros / da friagem nascente… Rio rio / do meu entardecer – foz do receio- / sinuoso caudal sem harmonia, // onde me levam tuas águas turvas? / a que mar correm por neblinas nuvens?
“EM TODOS OS SERES DA NATUREZA EXISTE UM POUCO DE MARAVILHA” (Aristóteles). Maravilhas ocultas / no vadiar do tempo – / O silêncio um murmúrio / uma brisa ou o vento // O broto renascido / a flor anunciada / uma folha caída / da serenada árvore // O céu azul aberto / às aves que o percorrem / quando uma nuvem erra / subitamente informe // O relâmpago surdo / com a chuva a tombar / O dia sem crepúsculo / a noite inesperada // Cedo as luzes extintas / das casas da cidade / Um transeunte sozinho / nas pedras da calçada // A perene presença / de qualquer Voz serena / que a cada instante surge / vivificando os dias // e a derramar em tudo / arpejos de alegria.
QUE A NOITE SINTA O DIA. Que a noite sinta o dia que nos vai chegar, / que os astros permaneçam noutro curso, / que na terra sementes a brotarem / sejam ramagens fartas no futuro, // que o canto da manhã negue crepúsculos / acompanhando a ovação das aves / e que um fúnebre adeus enterre mágoas / e que daqueles ramos brotem frutos, // que um abraço fraterno cubra a vida / de humana intimidade e preenchida / por quanta esperança nos acenda o sangue, // e que a ventura seja a água fresca / que possamos beber a cada instante / e o pão que nos será dado a comer.