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Cata Ventos: Mais coisas do arco-da-velha

Costa Alves - 24/04/2019 - 9:53

As coisas do arco-da-velha, dizem os dicionários, são coisas estranhas, inacreditáveis, extraordinárias, fantásticas, extravagantes, estrambólicas, do outro mundo (qual?).
Noutra aceção, o arco-da-velha designa o arco-íris que nos enleva pela beleza das sete cores da radiação solar visível (ao nosso olhar) que atravessa as gotas de maior diâmetro suspensas na atmosfera. Neste sentido, o arco-íris não é coisa do arco-da-velha. Nada tem de inacreditável entre os fenómenos com que a atmosfera nos maravilha.
O arco-íris deve o seu nome à mitologia grega. Íris era uma deusa que tinha a função de arauto divino; de mensageira dos deuses. Nessa sua atividade, Íris deixava um rasto de muitas cores pelos céus que atravessava.
Não se conhece a origem da expressão popularmente mais utilizada. Simplificação de Arco da Lei Velha - um sinal do pacto que Deus fez com Noé? Crença popular segundo a qual existe uma velha no arco-íris, sendo a curvatura do arco a curvatura das costas provocada pela velhice? Seja como for, com o conhecimento científico que hoje temos do fenómeno, o inacreditável está fora do horizonte.
Já não será coisa do arco-da-velha a notícia de que o governo se propõe criar legislação contra o que tem feito (e outros governos fizeram). Refiro-me ao processo de recrutamento cruzado ou em linha reta de familiares para o Governo e suas assessorias. Por ser tempo de eleições, a questão assumiu foros de intriga com previsíveis efeitos tempestuosos. E, após o fracasso do reflexo inicial de autodefesa, o Governo viu-se forçado a tentar fazer assentar o pó propondo-se legislar sobre a matéria, mas não dissuadindo as culturas partidárias que geram esta prática de governação.
Já cá ando há muito tempo e lembro-me de tanta coisa… Por exemplo, do grito de insurreição contra o pântano de “jobs for the boys” em que a governação e os partidos navegavam. Salvo erro, foi lançado, em 1995, pelo então candidato a primeiro-ministro e hoje secretário-geral da ONU. 
Também confesso que, estando tão habituado a práticas de más governações, não me retiram (d)o sentido na vida. A gente adapta-se a muita coisa que não aceita... mas a evocação do 25 de Abril obriga-nos a ser severos com quem foi desfigurando o essencial de democrático e transformador que simboliza.
De uma coisa estou certo no aprendizado histórico da vida. Os fantasmas de Bolsonaros, Trumps, Le Pens, Orbáns, Salvinis esvoaçam por aí, prevenindo-nos. São produto de más governações em democracia representativa. E o episódio de nepotismo, de que temos falado, é mais um exemplo, entre tantos, de um modo de estar. O nepotismo, dizem os dicionários, resulta do “valimento de que gozavam junto de certos papas os seus sobrinhos ou parentes”.
Por extensão, a ciência política trouxe o conceito para a atualidade, como “favoritismo dado a parentes ou amigos por pessoa bem colocada” - também o referenciamos popularmente como afilhadismo, amiguismo, clientelismo. E há, também, quem designe esta prática de endogamia que está dicionarizada como “enlace matrimonial entre pessoas que pertencem ao mesmo grupo familiar, social, étnico, religioso”. Da democracia medíocre à ditadura com maquilhagem democrática, como agora a retocam, vai um pequeno passo. A legião de pessoas desencorajadas de cidadania pelos erros da democracia seguirá o feiticeiro que a souber manipular. Os valores do 25 de Abril não anunciavam uma democracia tão pouco asseada e, muito menos, um ameaçador populismo pseudodemocrático.

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