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Cata-Ventos: A mentira corre mais que a verdade

Manuel Costa Alves - 30/10/2025 - 9:27

Não sei que faça, leitor. A mentira já tem casa montada e muitos dos apetrechos que precisava para tomar o lugar da verdade. Está a terraplanar as redondezas do planeta atacando leis que a Ciência descobriu e comprovou. Galileu foi negado pela Inquisição e volta a ser negado pela mentira organizada em que (i)mediaticamente nos vão enrolando. Qualquer dia, irão lembrar-se de que Newton cometeu um erro crasso ao descobrir a lei da gravitação. Em vez da atração universal dos corpos celestes, estarão a substituí-la pelo trumpista “facto alternativo” da repulsão com o ódio a crepitar.

Enfim, novas façanhas do obscuro que fabrica cada vez mais negacionismos, para além dos de vacinas, aquecimento global e alterações climáticas, genocídios, direitos humanos, etc, e o mais que adiante virá.

Julgava que a precariedade é tormentosa. No idioma do “facto alternativo”, passa a ser, como é do seu interesse, um jardim de bom viver, a perceção que vence a realidade, o Rossio que cabe na rua da Betesga – simples, não entra pelos olhos dentro? O poder das ordens diretivas de quem manda é, por enquanto, insuperável. Transforma factos inconvenientes à mentira em ficções que agradam à ignorância. E, como a democracia se tornou ignorante do que fazer, não sabe que a causa da mentira e da ignorância está dentro de si própria. Assim vai o mundo e, mesmo tardiamente, Portugal, não podia deixar de lhe chegar.

Não estávamos habituados a que a mentira fosse tão organizada para combater a verdade. Julgávamos que a navegação da mentira se fazia com passo curto e que a verdade viria ao de cima, mas não. Agora tem pernas longas e braços globais eletromagnetizantes. Viaja por este planeta alçada pelas asas internéticas do deus dinheiro e injeta venenos nos sítios carentes de mais democracia e de democracia bem governada. A forma como a democracia (dis)funcionou deixou muita gente para trás e foi um excelente combustível para que o ódio, a mentira e a ignorância levantassem voo. Agora, banalizada a mentira, empurram a verdade para a solidão de cada um.

Se, como sabemos desde que a História é História, a ignorância é do maior atrevimento, que fazer quando o culto da ignorância se quer impor como se não houvesse sabedoria? Quando toma conta dos púlpitos sociais, a ignorância consome o recheio da mentira e arrogantemente conquista poderes, alterando valores civilizacionais e impondo novos sensos comuns.

Como é costume, não inventaram nada. Chegámos a pensar que esta epidemia respeitaria fronteiras, mas, agora, globalizada, o planeta tem asas mais rápidas para a dinheirama girar. E o ódio, a mentira e a guerra. Enfim, o mal está feito. Ou, melhor, foi sendo feito e agora vemos que a mentira corre mais que a verdade e está a vencer em quase todos os torneios. E é devastadoramente prepotente e impiedosa. Hoje a História rima com os rumos de há cem anos. De outra maneira, mas rima. Rima, mas não é poesia; é antipoesia. A corda da mentira há de romper-se mas, até lá não nos doa a paciência nem nos falte resistir.

O tempo está de feição pois, atrás da mentira, mentira vem. Na Idade Média, onde nasceu boa parte do adagiário popular, já se sabia, quanto mais agora. Nesse tempo, a internet e a televisão ainda não se confessavam e, claro, não havia repetidores, cascatas de perfis falsos, influenciadores, governança por perceções, o pior da inteligência robótica no lugar da livre liberdade. Cercaram-nos e estamos a perder locomoção. As capacidades de pensar e de agir estão diminuídas.

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