Ninguém gosta de dar o braço a torcer. Doa a quem doer, Primeiro-Ministro ou Segundo ou Terceiro, nunca dar o braço a torcer, ouviu? Se der o braço a torcer, que faço depois? Destorço? Braço torcido voltará ao lugar? Hum! Não posso assumir que sou mau governante, ou que errei aqui e ali, ou que não podia prometer o que prometi. É que, depois, só com cambalhotas se pode remendar o re(e)mendado. E as cambalhotas vão dar ao chão. Um problema.
Passei o tempo a dizer que não há quem seja melhor do que eu e os espelhos em meu redor repetiam-no vezes sem conta. E querem que dê o braço a torcer? Nessa não me apanham. Só se for para destorcer e voltar ao lugar, como se não tivesse acontecido. Com a falta de médicos que há, já viram o que é ter de ir quase todos os dias ao SNS onde não há braços a medir? Conversa vejo eu muita, mas braços, mão d’obra, é complicado - “é complicado”, ora aqui está uma expressão que simplifica quase tudo; não se mexe um dedo e muito menos o braço. Cá por mim, prefiro seguir o conselho deste ditado popular: “Não dês a todos o teu braço a torcer”. Já viram o que seria ver, diariamente, os atores com poder político, económico e (i)mediático a esbracejarem, nas águas poluídas do que fizeram?
Já não sei se estou a falar a sério (querem que diga “à séria”, é?), se a brincar. O que nos deixam é tão precário que o melhor é espirrar por todos os lados, como quem diz, ter opinião sobre tudo e sobre nada, mesmo que sejam meias-verdades e meias-mentiras e que quase nada saibamos do que julgamos saber. Que se aguentem! O deus Dinheiro trata-nos da vida e da saúde da vida.
Digo isto e já sinto um formigueiro a subir da mão para o antebraço e ainda não cheguei ao cotovelo - uma agudeza que, às vezes, é braço armado para abrir caminho quase que às cuteladas. Estranho: só agora noto que há por aqui designações equívocas. Então não é que chamamos braço ao segmento que vai de onde acaba a mão para chegar ao ombro? Então para que serve o dito de antes do braço? Grande confusão. Onde está o respeito pela dignidade do antebraço? Nem o braço do cadeirão lha concede. Bem sei que, em Medicina, a regra é clara: braço é entre ombro e cotovelo e antebraço o que deste vai à mão. É que, sem precisão, triunfa o engano. O adagiário é que não vai nessa conversa: “Como é o braço, assim é a sangria”. Outros tempos.
Entretanto, quando não sabemos que fazer, ficamos de braços cruzados a gozar o panorama. Sobretudo o das trapalhadas. Pela minha parte, o que mais gosto é do receber de braços abertos - o abraço não se dá sem o braço e o antebraço pegados como a Medicina quer. E, quando os braços abertos se fecham muito apertados, é que há verdadeira osmose e transfusão de sentimento.
Já deixei antever cotoveladas que a articulação do antebraço com o braço pode dar (dão-se cotoveladas? Oferecem-se? Enfim, mais equívocos.) Há também o braço de ferro que segue a lei do mais forte em poder físico, social, cultural, político. É um verdadeiro braço armado que nos põe a esbracejar contra as violências ditas não bélicas que moem, moem os grãos da precariedade.
O adagiário tem mais esta sentença também teoricamente parada no tempo: “o braço do rei e a lança, longe alcança”. Pois, mas a História avança; hoje notamos mais o longo braço da lei e da lança e ironizamos sobre o poder da lança da lei arremessada por braço económica e politicamente comprido.
Enfim, começo a sentir-me infetado pela epidemia psicótica que anda por aí e presumo que este texto já o revela.
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