Este é o título de um livro de poesia de António Salvado que terá inspirado os organizadores da coletânea de poemas com o mesmo título, apresentado em novembro nas XXXVIII Jornadas de Medicina da Beira Interior, com edição da Labirinto e apoio da Câmara Municipal do Fundão. Com 121 poemas de autores de vários países, aqui deixo extratos de uma obra que Pedro Salvado concebeu e ele próprio, António Lourenço Marques e João Artur Pinto organizaram.
A esperança é frágil e muito exigente. Entra, sai, incentiva, esquiva-se, abençoa. Tem altos e baixos e nem sempre ouve os nossos chamamentos. Umas vezes aparece ornamentada com metáforas de fé e audácia; sobe aos faróis da maresia e semeia estrelas nos cata-ventos da utopia. Outras vezes, nem avisa; dissolve-se em evasivas e segue trilhos que só ela conhecerá. A esperança tem muitas dimensões.
“A esperança é isto, um dia de cada vez. (…) Cá estamos, como se nada fosse, como se nada sobrasse da ilusão” [Luís Filipe Pereira] ou “la esperanza es un nicho de mercado” [Antonio Orihuela]. Mas, “no es poco tener esperanza”, pois “entre una calamidade y otra,/ cuando la oscuridad/ parezca no tener fin, recuerda/ la promessa ancestral/ que te mantendrá a flote” [Alfredo Pérez Alencart].
“Só aceito a esperança para não cair na tentação de dar ao corpo/ Mais do que ele merece. Há quem garanta que me deixarei/ Subornar por memórias felizes, mas quando arregalo os olhos,/ Para dar descanso ao sol, aceito a lua de todas as ausências.” [António Miguel Ferreira]. Em Gaza, “O sol queimou os andaimes do céu,/ enquanto os lençóis, sujos de pó, brancos,/ branquíssimos,/ cobre o que resta dos brinquedos amputados.” [Luís Aguiar]. Por aqui vai “un hombre bordando la sombra, puntadas de luz/ una mujer arando la noche, surcos iluminados/ dos personas dibujando sus pasos/ con el molde de los sueños (…) “un mundo sin fronteras/ sin rosa de los ventos,/ todos, fotocopias de la misma raiz.” [Aída Acosta]
A esperança pode brotar em qualquer lugar; uma semente já é esperança. E no voo de um pássaro a arborescer na noite de Hiroxima e no poema criado pela esperança que sobrevive na Palestina. “São breves os teus passos agora/ Uma luz que se desprende/ Um abraço prometido/ E a brisa que corre célere/ A envolver a negrura” [Filipa Vera Jardim]. E “no grito selvagem dos montes e dos campos,/ a dança do rio era a sede antes do fogo/ que jorrou de ti antes do primordial grito da terra,/ mas tu, aqui, no majestoso coração dos dias/ ainda és a mão e o verbo demoníaco da esperança!” [João Rasteiro].
Afinal, é “esperança numa fé maior que o medo/ numa estrada melhor que a dúvida/ numa força capaz de continuar a errar/ caminhando firme confiante/ e no fim de todos os inícios, recomeçar!” [Lara de Leon]. E “esta calma estranha/ é a única força que possuo/ perante os sobressaltos” [Leocádia Regalo]. “O grão virá depois da erva alta/ empunhada a bandeira silenciosa/ da Terra” [Maria Helena Ventura].
“Creio nos poetas/ que encherão a terra de louvores/ bendita sejas terra pelos frutos pelos aromas e por tantos silêncios/ porque és a única porta/ a única casa depois de todos os exílios” [Teresa Alvarez] pois “a defesa do poeta é a esperança/ de reunir suor e lágrimas suficientes/ para atravessar/ toda a extensão da terra queimada/ ensaiando/ o dia em que voltarão as perguntas” [Porfírio Silva].
Enfim, “da raiz à semente, só a esperança, só mesmo a esperança é o nosso cabal destino” [Maria Toscano]. “Que se lembre de mim quando acordar. Eu ficarei à espera.” [António Salvado]. Onde a esperança corre há sempre rios dentro de nós.