Pois é, leitor, cá estamos outra vez, seis meses depois da catástrofe do último verão. Há uma vida profissional que estou nisto e não vejo escapatória para o que não se faz e não se faz. Choramos, praticamos atos de extremosa abnegação e solidariedade, sugerimos como sair do círculo vicioso e, passado o luto, regressamos ao mesmo país das meias tintas, país de chover no molhado. Os governantes, que nos prometeram os mundos e fundos do “agora é que vai ser”, voltam à casa do rame-rame e esperam pela próxima.
Tento escapar à depressão nacional relendo “Cândido ou o Otimismo” do iluminista Voltaire (1694-1778). A ver se me disfarço do que não sou, contrariando a melancolia. 28 de janeiro de 2026 é mais uma data para passar à história do fumo. Mais uma vez chorámos inundados, penámos destelhados, lamentámos impotências, ardidos por dentro e, pronto, o povo é sereno, tudo se compõe. Mal ou menos mal, o que é preciso é voltar ao que estava. Sabemos há muito como elas doem, mas somos bons no improviso. Até à próxima!
Uma das personagens criadas por Voltaire, o impagável Pangloss, percorrendo a Lisboa destroçada pelo terramoto de 1755, garante a Cândido, “que todos os acontecimentos estão devidamente encadeados no melhor dos mundos possíveis”. E lembra-lhe que o terramoto não está fora do quadro cénico que as personagens tão bem conhecem de outras paragens. Guardo a resposta de Cândido: “Tudo isso está muito bem dito, mas devemos cultivar o nosso jardim.”
Imagino o que se passaria se a ficção de Voltaire tivesse conduzido Cândido e o professor Pangloss a uma entrevista com o homem que arregaçou as mangas e teve a lucidez e a energia de traçar um caminho e calcorreá-lo. Sebastião José de Carvalho e Melo ficará para a posteridade como Marquês de Pombal. O inabalável otimismo do mestre Pangloss sairia da conversa desmoronado. Diz-se que proclamou: “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”. Mais: reconstruir criando um futuro inabalável alicerçado na ciência; isto é, cuidar do futuro. Irá levar anos - tratar bem do futuro dá muito trabalho e não há nada mais entusiasmante. E só o faremos se tratarmos bem do presente. Então, mãos à obra! Cândido ficaria agraciado pela aprovação da sua máxima de que temos de “cultivar o nosso jardim”.
Penso em nós, no nosso percurso, e sinto que nesta matéria o nosso pensamento, melhor dizendo o pensamento dos governantes e das forças partidárias que os sustentam, é de cariz panglossiano. Isto passa, a normalidade voltará, estamos “no melhor dos mundos possíveis”, o futuro há de vir, não precisamos de tratar dele. Cheias e inundações? Vento de destelhar? Fogos de mais arder? Ondas de calor e mais ondas de calor e mais mortos pela exposição ao calor excessivo? Surtos de gripe com frio e casas indefesas?
Voltemos então ao estado que possibilitou a calamidade - assim tem sido e é de prever que os poderes de governar assim continuarão. Agitam temporariamente um cartaz de vaga e enferrujada esperança para desviarem os olhos da substância do futuro e, se o futuro protestar, farão ouvidos de mercador. Peço licença a Voltaire para os designar por panglossianos. Digo isto e faço questão de não deixar espaço a que os ultrapanglossianos, sediados nos EUA e com delegações em muito mundo (e aqui) tentem tirar partido do que digo. Só investindo estrategicamente no que demora anos e anos a consolidar pode cuidar do futuro e torná-lo no cultivo de jardim que Cândido sonha. Recuperar não é voltar a deitar-se no divã que originou a depressão.
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