Não sei que diga, leitor. Parece que está tudo dito, mas outro tanto está por dizer. Ter casa; não apenas teto. Casa para a vida. Disse a cantora Ana Moura no Rossio; “Vi uma miúda que dizia: ‘o primeiro desenho que nós fazemos na vida é uma casa’. É um direito fundamental, está na Constituição, e as pessoas estão só a pedir esse direito”. É da nossa natureza; todos fizemos esse desenho. Não o de uma casa como a descrita por um cartaz que se erguia entre os jovens manifestantes: “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”.
Diogo contou à imprensa que a esmagadora maioria dos amigos e dos contactos profissionais teve de sair de Lisboa e que muitas pessoas da sua geração estão a partilhar casa. Não era isso que seria normal, pois havia a lógica de estudar, trabalhar, comprar casa, casar e poder ter filhos. Há uns 15 anos, o governo apontou-lhes o caminho da emigração, como se estivessem a mais, como se não nos pertencessem. Criámo-los, pusemo-los a estudar o mais possível, gabámo-nos disso - a geração mais qualificada - e desamparem a loja, vão ver se encontram algum pedaço de céu noutro país. Entregámos o que investimos neles aos países mais ricos e eles usufruíram gratuitamente da nossa doação. A irracionalidade não tem limites.
Passaram anos e anos a viver silenciosos em casa dos pais, em quartos partilhados, em contentores, debaixo de viadutos ou em casas improvisadas que os buldózeres vieram deitar abaixo. Tetos que não são casas. Tetos de sobreviver, subvivendo.
Os sucessivos governos não quiseram criar planos de resolução, gradualmente ajustados a diversos prazos, de um problema que, era fácil prever, se iria agudizar. Foram decretando medidas paliativas e outras agravadoras, como, entre outras, a subida dos preços, o incentivo a alojamento local, a total abertura à lógica de mercado dominado por fundos imobiliários multinacionais, concessão de vistos “gold” a quem,
em troca da nacionalidade portuguesa, investisse 500 mil euros sobretudo na aquisição de imobiliário de modo especulativo.
Penando sob as condições geradas para o seu subviver, os jovens juntam-se e dizem que não podem mais. Continuo a citar o Diogo: “quando a população se manifesta desta forma e decide deixar o conforto da sua rotina para poder montar uma tenda no meio de uma praça, com toda esta exposição, não o faz de ânimo leve. (…) A maioria das pessoas da minha idade não se pode dar ao luxo de viver sozinha ou com o seu parceiro, têm de estar a partilhar casa e viver em quartos como se fossem estudantes. E depois queixamo-nos, ao mesmo tempo, de que as taxas de natalidade estão a baixar. Quem é que consegue considerar ter um filho hoje em dia?”.
O governo respondeu, como sabemos - “implacável” - seguindo o aviso do presidente da Câmara do Porto, agredindo os jovens concentrados na Praça D. João I e, dias depois, no Rossio. Ninguém consegue negar a razão de ser e a justeza deste movimento pela habitação. Apesar disso, nem um pingo de reconhecimento efetivo, nem um gesto colaborativo para resolver o tal problema que todos reconhecem ser um gravíssimo problema. Nem falo das reações, condescendente ditas “infelizes”, de vários membros do governo e, entrando televisivamente na Assembleia da República, deparo com ainda muito mais berraria insultuosa do que a do costume.
Alguém dizia que a situação da habitação no país representa “um ato de extrema violência contra todas as pessoas que trabalham em Portugal”. O Governo escolheu prolongar esse estado de violência com violência policial.