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Cata Ventos: Estamos todos ardidos

Costa Alves - 27/07/2017 - 12:08

Isto ainda está quente, demasiado quente, e como só gostamos de reagir a quente, nunca pensamos. Estamos a ferver incendiados por uma grande aflição, por um vazio irreparável, por uma revolta, por uma imensa dor. Não é a primeira vez, nem a décima-primeira, que a desgraça nos bate assim à porta mas sentimo-la sempre como se fosse única e irrepetível. Como a maior e inelutável; como fatalidade a que o destino nos condenou. Temos esta doença incurável, até agora.

Quem se recorda de Armamar em Setembro de 1985? - 14 mortos. E de Águeda em Junho de 1986? - 16 mortos. E de Bragança em 1987? - 5 mortos. E da Covilhã e do Fundão em 1991? - 1 morto e 300 desalojados? E de Arganil em Setembro de 1992? - 4 mortos. E de Mação, Vila Velha de Ródão, Monchique, Vila de Rei, Pampilhosa da Serra, Mação, Sintra, Madeira e de tantos outros lugares de catástrofe já apagados das folhas da nossa memória? E dos episódios de 1991 e 95? O vento leste furioso e indomável varria tudo, também em menos de um fósforo. E do concelho de Vila Velha de Ródão a arder durante 10 dias em 1998?

Isto escrevia eu neste jornal em 7 de agosto de 2003. Há quase 14 anos. Nesse ano, arderam 426 mil hectares e deixámos 21 mortos na floresta e 1953 pessoas saíram da vida por exposição a calor extremo. Dois anos depois, são consumidos 339 mil ha e, entre 2003 e 2013, verificaram-se 6320 óbitos por causas relacionadas com o calor. Está por revelar o número de mortes excedentárias verificadas em 2016 e no ano em curso. Não me canso de repetir que as ondas de calor produzem duas frentes de calamidade e não apenas a da floresta.

Onde estão as lições retiradas dos escombros do que magoou e originou retóricos juramentos políticos por um futuro que nunca veio? Quem não mudou o que teria obrigatoriamente de mudar? Quem não nos defendeu deste futuro indefeso? Deste futuro que queima a despovoada ruralidade e transforma a interioridade num fardo pesadíssimo.

Movido pelas meias tintas de quem vem ocupando o poder político, este nosso país das meias tintas tem a memória curtíssima e apenas se manifesta com emoção à flor da pele quando a catástrofe irrompe. Já não recordamos o que gritámos, as práticas e ausências de práticas que maldissemos, as efémeras promessas que não cumpriram. 

Tantas vezes juraram que nada haveria de ser como dantes e tantas vezes voltámos a chorar sobre o leite mais uma vez derramado. Tantas vezes nos flagelámos, tantas vezes encontrámos bodes expiatórios, tantas vezes fizemos figuras de retóricos acusadores e tantas vezes nos disseram que fariam tudo e nunca fizeram um milésimo. Quantas vezes nos disseram que tinham feito o máximo quando o máximo tinha de ser feito ao longo de todos estes anos em que fizeram o mínimo.

Tudo a retórica levou. A opção estratégica de prevenção não foi feita e as ciências e os recursos não foram convocados para a reorganização. Os interesses, a ignorância e a incompetência mantiveram a necessidade arredada. 

A política manteve-se no deixa-andar e, como quem não quer a coisa, no dia seguinte, sempre voltaram as rotinas das meias tintas onde se apagam os grandes anseios de futuro e nada acontece que altere este destino sem destino de apenas acordarem quando a desgraça chega com os nossos insuportáveis clamores.

Há indicações (por enquanto apenas a navegar em palavras) de que o governo  quer inverter esta forma de estar no país da floresta. Será desta que não partimos   outra vez derrotados? Será?

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