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Cata-Ventos: Expressões sobre temporais

Costa Alves - 19/03/2026 - 9:02

Custa ver um Primeiro-Ministro caracterizar, em 1 de fevereiro, a depressão “Kristin” como “um fenómeno climatérico” e insistir, três dias depois, em Despacho sobre as medidas a tomar. Nenhum agente de proteção civil se exprime assim. Conhece a diferença entre fenómenos meteorológicos e climáticos ou “climatéricos” - vocábulo que não usamos na profissão, mas que está popularizada com este sentido e dicionarizada. Valham-nos os agentes do sistema de proteção civil que têm formação e estão abertos ao falar da ciência. Não dizem o clima do dia em que a depressão “Kristin” investiu pelo centro do país, pois esse clima não existe. Dizem: as condições meteorológicas, atmosféricas ou do estado do tempo. Falei dos conceitos errados do Primeiro-Ministro, mas podia referenciar outros membros do governo, jornalistas e comentadores. Ando com esta conversa desde que estou na profissão.
Também estranho a utilização de vocábulos ou expressões que deformam a compreensão científica do que acontece. Ora atentem numa expressão que rapidamente passou a viajar nas nossas mentes: “comboio de tempestades”. Podiam referir-se de várias maneiras à evolução de sucessivas depressões com sistemas frontais associados, mas gostam de fórmulas achadas em livros únicos. Nos dias de hoje, a comunicação social, com parte do seu alimento percecional assente nas ditas redes, é de uma uniformidade sufocante. Busca uma palavra ou expressão e repete-a como se fosse a única maneira de o leitor, ou telespectador, poder entender. E, convenhamos, é muito pobre esta imagem de um “comboio de tempestades” com várias carruagens acopladas.
E os “rios atmosféricos”, também crismados de “rios voadores” e “rios aéreos”? É bonito como ficção poética, mas não é de poesia que estamos a tratar. A ciência também gosta de poesia, porém, cada uma no seu lugar. Tinha visto aumentar nas redes sociais a invocação dessas parecenças com rios visíveis. Com margens certinhas descritas como “fluxos concentrados de vapor de água” ou “massa de ar com  vapor de água” ou, ainda, “rios atmosféricos, que afetam Portugal continental, nascem no Atlântico e são responsáveis por conduzir ar subtropical temperado e muito húmido”. Uma trapalhada que anda por aí enlaçada por um dialeto que não tem assento na escola do conhecimento meteorológico.
Também me custou assistir, televisivamente, à cena de congratulações por a Baixa de Coimbra ter saído ilesa da enchente do Mondego, coincidindo com o fim das condições meteorológicas que originaram a situação de calamidade. Fixei Presidente da República, Primeiro-Ministro, Presidente da Câmara de Coimbra, Presidente da APA, Presidente da ANEPC. Sessão de discursos que todas os canais televisivos de notícias estamparam em simultâneo. Todos a falar pela ordem protocolar e todos subiam ao céu graças ao trabalho que disseram ter realizado. As severas anomalias atmosféricas tinham deixado de funcionar e a normalidade iria regressar. De repente, dei um salto: onde está o IPMA? Alguém que represente a área operacional de conhecimento da origem do mal. Alguém que represente a instituição e os profissionais que orientaram a atividade das restantes instituições ali presentes. É que o IPMA saiu incólume da calamidade - no estado atual da ciência meteorológica fez o que podia, embora pudesse ter tido mais e melhor presença comunicacional. E, claro, melhor definição quantitativa dos fenómenos previstos nas escalas temporal e espacial que, bem sei, não depende apenas do IPMA.
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