A inveja não é, apenas, querer o que o outro tem; é mais radical.
É querer que o outro não tenha pois, na maior parte das vezes, não se pode ter o que o outro tem.
É a repulsa, a exclusão do outro; não apenas a afirmação do desejo ou da ambição de ocupar o lugar do outro.
A inveja é ávida, insubmissa, inconsolável. Como reza a sabedoria popular, está sempre em jejum e persegue os afortunados.
"As campanhas eleitorais e os últimos jogos dos campeonatos de futebol, como os deste ano, são pontos altos das lavas emitidas pelos vulcões da inveja"
A inveja entra em nós, quando alguém, próximo ou relativamente chegado, ascende a um lugar, a um objetivo, a um reconhecimento que gostamos de chamar “invejável”.
Ou seja, não queremos que o lugar, o objetivo ou o reconhecimento sejam atingidos pelo outro.
Ou porque não nos candidatámos a eles, ou porque não estavam nas nossas capacidades realizá-los, mesmo que se tivessem perfilado como desejo ou aspiração.
Se não é para nós, que não seja para o nosso vizinho.
Então, a inveja estabelece a sua teia, não porque desejemos ascender aonde o outro chegou, mas porque chegou lá e não aceitamos que o tenha conseguido.
Diz o ditado popular: os invejosos sentem mais os bens alheios que os males próprios.
Como consequência, o invejoso emagrece de ver a gordura alheia.
Com esta formulação, estamos com os dedos em riste a apontar, por exemplo, o pecado capital das paixões clubistas e partidárias.
É que não desejam apenas ultrapassar o outro para ocuparem o seu lugar, mas humilhá-lo, anulá-lo, mantê-lo moribundo.
A qualquer preço.
Os ingredientes da inveja estão misturados na sopa da cobiça, da concorrência e da competição.
São raros os casos em que não há (van)glória sem inveja.
Desejamos que o nosso partido (não tenho) ganhe, em qualquer circunstância.
Independentemente de como as coisas corram ou estejam a correr. Trata-se de derrubar a tribo que se encontra no poder para dar lugar à nossa.
E há que manter e alimentar, também, a arquibancada nacional que sustenta o clubismo partidário com o seu voto.
Na paixão partidária há ingredientes da paixão clubista do futebol, mas esta é mais complexa, possui mais cambiantes e está mais afastada dos interesses materiais e da volúpia do poder, da “glória de mandar”.
Tendo-os, é simultaneamente mais extensiva e intensiva no dia-a-dia da sociedade.
Mas, ambas aprendem uma com a outra.
As campanhas eleitorais e os últimos jogos dos campeonatos de futebol, como os deste ano, são pontos altos das lavas emitidas pelos vulcões da inveja.
Os espetáculos que a inveja organiza são indecorosos e não há crianças, uma sequer, para dizer como vão sujos e nus os reis que os fabricam.
Diz-se que a confirmação da amizade se faz nas horas más.
É que não se inveja ninguém nas horas más e fácil é ajudar e louvar quem não se pode invejar.
Mas, talvez possamos inverter a afirmação e dizer que a verdadeira medida da força e profundidade da amizade deverá ser encontrada nas horas de sucesso, não nos fundos dramáticos da dor.
Nas horas de sucesso, fazemos panegíricos com muita parra e pouca uva, com muita retórica e pouca substância e louvaminhar será continuar a invejar.
É querer continuar a desejar estar naquele lugar por outros caminhos.
A inveja é um pecado capital e impõe-se tão mais avassaladora quanto maior é a proximidade do seu objeto.
Não há inveja em abstrato por algo de difuso ou por alguém indefinido.
Continuo a citar a sabedoria vinda da experiência de séculos: não se tem inveja de defuntos e apartados, senão de vizinhos e chegados.
Ou mais vale inveja que piedade.
É a cultura que temos.