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Cata ventos: No centenário de Eugénio de Andrade

Costa Alves - 12/01/2023 - 10:52

 

"Somos nós a boca mais fresca do sol”, escreve Eugénio de Andrade, e não conheço ninguém que, a meu gosto, tão rumorosamente, habite os trabalhos da atmosfera e nos traga “o milagre de cada dia / escorrendo pelos telhados”. Será uma leitura parcial, porventura com discutível legitimidade, seguramente redutora, esta de puxar meteorologias e climatologias da minha (de)formação profissional, mas deixem-me entrar no corpo das estações cujos segredos a poesia de Eugénio de Andrade tanto desvela.

Entre março e abril, “que cheiro doce e fresco / por entre a chuva / me traz o sol”. Entre março e abril, “os anjos nascem aqui: / frescos matinais, quase de orvalho”. Para trás fica o inverno, território de apagamento que perpassou como deserto depois de “entrar em casa / reconciliado / com as húmidas pálpebras do outono”. O inverno quase não tem imagem nem energia vocabular na poesia de Eugénio de Andrade. Ou é local de hibernação ou reservatório da memória (e)laborando ecos, luminosidades, registos, sonoridades que o outono arrastou “para o fundo”.

O outono é um apeadeiro-limite: “Chamemos pelas aves, é outono, o vento / arde antes de escurecer, / quando uma criança corre / na colina / atrás do vento, quando a música / das primeiras chuvas/ sobre o feno”. Com a sua “luz molhada, o inverno é o deserto, o lume apagado”. E, “depois do vento / onde tenho uma casa e de onde veremos passar um rio / rente ao outono, / quase nada virá de onde já não pode senão melancolia. Apenas a pequena orgia da chuva na vidraça.”

“Em abril, brinca a manhã feliz e descuidada, / como só a manhã pode brincar” e, quando vem, a chuva tem “o sabor do sol”. Não há luz nem vivente que não reconheça “o sabor nupcial da chuva”; nem “as altas árvores onde o sol e a chuva / adormecem na mesma folha”. Desde que foi “abandonado aos cães do outono”, tudo virá, agora, “no ritmo da própria primavera”. As mãos possuem “os montes e os rios e as nuvens; despimo-nos como o orvalho/ na concha da manhã”.

“Com lentidão de animal, subimos a primavera” e “eis que o verão/ chega de súbito, / com seus potros fulvos/ seus dentes miúdos, / seus múltiplos, longos/ corredores de cal, as paredes nuas, / a luz de metal”. E, até onde menos se alcança, o verão luz: “todo o rumor é ave e cada bago de uva sabe de cor/ o nome dos dias todos do verão / que prepara a semente do Sol. / Respira devagar, / grão a grão, / o azul, / o frio, / implacável / azul do verão”.

Quando a curva do verão se inclina para setembro, é ainda “a obsessão do pão com sabor a sol, / da luz acidulada / a prumo, / do sol da pele, / da poeira lentíssima do sul / a pedra do ar / clara e mordida, / agora a caminho doutro sol mais branco e com vozes que não param / de crescer a caminho do inverno” com “vozes onde o sol apodrece, já sem sinais dos amorosos / instrumentos / do outono”. E, “com a chuva / caindo sílaba / a sílaba sobre os olhos”, resta perguntar: “que fazer destas mãos, cúmplices do sol?”

Como sempre em Eugénio de Andrade, “são como um cristal, / as palavras. / Algumas, um punhal, / um incêndio. / Outras, / orvalho apenas. / Secretas vêm, cheias de memória. / Inseguras navegam: / barcos ou beijos, / as águas estremecem. Desamparadas, inocentes, / leves. / Tecidas são de luz / e são a noite. / E mesmo pálidas / verdes paraísos lembram ainda.”

Nasceu no dia 19 de janeiro de 1923, em Póvoa de Atalaia, concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco. Sobre a aldeia natal: “É à sombra das suas folhas que os meus dias / Cantam ainda o sol.”

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