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Cata-Ventos: O boi da paciência

Costa Alves - 18/05/2023 - 9:02

Imagine que estava em 1960 e que fazia uma “Viagem através duma Nebulosa” com António Ramos Rosa e que nela encontrava este poema. Parece que se intrometeu nas nossas vidas como se não tivessem passado 63 anos. Intitula-se “O Boi da Paciência” e, mágoa minha, como não tenho espaço, não posso transcrevê-lo na íntegra. Leia e não vai esquecer.
“Noite dos limites e das esquinas nos ombros / noite por de mais aguentada com filosofia a mais / que faz o boi da paciência aqui? / que fazemos nós aqui? / este espectáculo que não vem anunciado / todos os dias cumprido com as leis do diabo / todos os dias metido pelos olhos adentro / numa evidência que nos cega / até quando? / Era tempo de começar a fazer qualquer coisa / os meus nervos estão presos na encruzilhada / e o meu corpo não é mais que uma cela ambulante / e a minha vida não é mais que um teorema / por demais sabido! (…)
“Há uma casa que me espera / para uma festa de irmãos / há toda esta noite a negar que me esperam / e estes rostos de insónia / e o martelar opaco num muro de papel / e o arranhar persistente duma pena implacável / e a surpresa subornada pela rotina / e o muro destrutível destruindo as nossas vidas / e o marcar passo à frente deste muro / e a força que fazemos no silêncio para derrubar o muro / até quando? até quando? / Teoricamente livre para navegar entre estrelas / minha vida tem limites assassinos (…) colori mitos e distribuí-me em segredo / e ao fim ao cabo / recomeçar. / Mas estou cansado de recomeçar! / Quereria gritar: Dêem árvores para um novo recomeço! / Aproximem-me a natureza até que a cheire! / Desertem-me este quarto onde me perco! / Deixem-me livre por um momento em qualquer parte / para uma meditação mais natural e fecunda / que me afogue o sangue! 
“Recomeçar! / Mas originalmente com uma nova respiração / que me limpe o sangue deste polvo de detritos / que eu sinta os pulmões como duas velas pandas / e que eu diga os nomes dos mortos e dos vivos / em nome do sofrimento e da felicidade / em nome dos animais e dos utensílios criadores / em nome de todas as vidas sacrificadas / em nome dos sonhos / em nome das colheitas em nome das raízes / em nome dos países em nome das crianças / em nome da paz / que a vida vale a pena que ela é a nossa medida / que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias / que o reino da bondade dos olhos dos poetas  / vai começar na terra sobre o horror e a miséria / que o nosso coração se deve engrandecer / por ser tamanho de todas as esperanças / e tão claro como os olhos das crianças / e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele.
“Mas o homenzinho diário recomeça / no seu giro de desencontros /A fadiga substituiu-lhe o coração / As cores da inércia giram-lhe nos olhos (…) Os mais simples são os melhores / nos seus limites conservam a humanidade / Mas este sedento lúcido e implacável / familiar do absurdo que o envolve / como uma vida de relógio a funcionar e um mapa da terra com rios verdadeiros / correndo-lhe na cabeça / como poderá suportar viver na contenção total / na recusa permanente a este absurdo vivo? / Ó boi da paciência que fazes tu aqui? / Quis tornar-te amável ser teu familiar / fabriquei projectos com teus cornos / lambi o teu focinho acariciei-te em vão / A tua marcha lenta enerva-me e satura-me / As constelações são mais rápidas nos céus / a terra gira com um ritmo mais verde que o teu passo / Lá fora os homens caminham realmente / Há tanta coisa que eu ignoro / e é tão irremediável este tempo perdido! / Ó boi da paciência sê meu amigo!”
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