Leio “A Queda de um Anjo” de Camilo Castelo Branco e dele transponho alguns dos muitos vocábulos e expressões que lamento termos deixado de usar. Entre tantos outros, ponho de lado boticários, rapés, liteiras, com os seus “liteireiros”, que polvilhavam a vida quotidiana da Lisboa daquele tempo. Refiro-me a palavras e expressões que podíamos ter conservado. É a evolução da língua, bem sei, mas ficámos mais pobres.
Salvo as devidas distâncias, o Parlamento é glosado de uma maneira que podemos projetar na atualidade. Há, seguramente, quem tape os nossos ouvidos com “bordão e concha de romeiro do progredimento social”. Há, também, quem se insurja contra “locuções repolhudas” e indague saber “onde se estudam aquelas farfalhices”. Perante o absurdo do que é narrado, convoco um vocábulo com outra beleza, ou não fossem assim os que rimam com beleza. Neste caso, “absurdeza”, embora também “absurdidade” seja de uso no tempo. Quem pode jurar que havia menos vocabulário no século XIX?
Claro que também havia quem caísse no ridículo. No Parlamento de oitocentos, achava-se de melhor tom que a queda não fosse tão abismal. Preferiam apodar de “ridiculoso” e não digam que não podemos repescar essa “usança”. Também se manifestavam deputados com “espíritos pespontados de grande loquela” (leia loqüéla, isto é, verbosidade) e, muitas vezes, “estomagados” com o “vozeamento” que pairava na assembleia. E, perante “a loquacidade embrechada de sentenças”, o próprio Camilo não deixa dúvidas sobre o que lhe vai na alma por dentro da história que narrava: “Ai da pátria, quando os talentos parlamentares se encanzinam nestas pugnas inglórias!” Repito, “encanzinam” e não preciso de abrir dicionários.
Como podemos inferir, “a parvulez dos parlamentos”, como o romance abundantemente exemplifica, não foi invenção dos tempos contemporâneos.
Também havia “arquivistas de insignificâncias” e quem “aformosentara o discurso com palavras pechisbeque” e, também, aqueles que “jogateiam com o país”. Tudo “sem razoamento”.
Dado dia, uma das personagens não conteve o seu desdém, perante as “farfalharias” do “falario daquela feira veneranda”. Claro está que, como acontece hoje, também altercavam com desavença e havia uma designação apropriada: “testilha”. E, para admiração minha, tal já acontecia no tempo, perante “senhoras doutas enfrascadas em política”. Não me diga, leitor, que não gostava de incorporar no nosso repetitivo falar quotidiano, cada vez mais colonizado por automatismos da anglofonia, algumas destas palavras e expressões que o andar da vida apagou. Concluamos estas evocações parlamentares presentes no romance de Camilo asseverando o seu parecer de que “a câmara não é aula de retórica, as galas de linguagem não é arte é tramóia, não é luz é escuridade”.
“Escuridade”? Camilo também recorre a “escureza”, mas não encontrei escuridão. E se procura melhor clareza, junte “clarideza” à claridade do dia e associe a beleza de “eloquentes simplezas” à nossa pouca simplicidade. Querem mais? “Salubérrimas águas”, “desremediados”, “o que mais o desairava era o traje”, “o deleite das horas feriadas do dia”. Continuo a “aspar as palavras” descobrindo “liberdades desmaliciosas”, “sabenças”, “pisa-verdes”, como quem diz janotas presumidos que não conseguem “o amor explosindo da cratera” nem o “ventar rijo da paixão”. Também encontramos “patranheiros” que acabaram “nas presas da justiça” e “um sujeitório vestido ratonamente” a “tabaquear profusamente”.
É Camilo Castelo Branco no (seu) esplendor da nossa língua.