Por vezes, o silêncio é a maneira mais fértil do falar. Silêncio sobrepovoado de desencantos, desolações e esperanças que não resistem ou não insistem. Este livro - “Quando o Silêncio Falar”, de Maria Helena Ventura (Mosaico de Palavras Editora, 2023) – abre as portas do silêncio e regista as palavras da sua fala. Limito-me a anunciá-lo através da leitura amadora e parcialíssima que se segue.
Este é um “tempo de bordar desilusões / nos borbotos da falésia” (p9), tempo de perguntar se nada “mais resta senão / escrever abraços / no avesso do afecto / e inventar estrelas / no manto do silêncio” (p12) Um tempo em que “As nuvens navegáveis estão suspensas de um tecto azul [e] tem sido difícil alcançar algumas” (p14). E, só interpelando e interpelando-nos, podemos sustentar a integridade: “Não cedas um milímetro do teu espaço, um átomo da lucidez que te garante a sobrevivência” (p15), pois “A Terra pede auxílio / aos últimos alinhavos / da luz.” (p10) e “é preciso decifrar / a paisagem humana virgem / num solfejo de salmos / de beleza sensorial ainda por dizer” (p9). Sublinho: “A Terra pede auxílio / aos últimos alinhavos / da luz.”
Na verdade, “Ninguém merece / o indigno ónus / da loucura / que fere gerações” (p31). Teremos de interiorizar que “Ainda não nascemos. // Se não aprendemos a soletrar / a luz das praias / distantes do pecado // não merecemos / a face inocente da Terra / sob a espuma dos dias” (p11).
Como todos os tempos que a História faz, o tempo desta nossa viagem é perturbante. “Sendo os dias / nuvens de areia (…) nem abraçada ao teu corpo / me debruçarei sobre / falésias perdidas” (p17). Prefere “Caminhos Silenciosos”: “Vou por este caminho / de silêncio azul / onde as vozes se evadem / em distância calculada. (…) Para amanhecer o nome delas / das palavras / terias que habitá-las / por dentro / devagar / como se invadisses a fogo / os ninhos do meu corpo” (p20). Amanhecer com o nome das palavras quando “todas as manhãs / hão-de acordar / orvalhadas / pelas borboletas / transparentes / da alma” (p22).
Estamos num tempo de dúvida e separação: “Vai-se criando um exílio entre altos muros de pedra. Ninguém quer morar na terra árida das distopias” (p28), enquanto “mil pássaros esperam / levantar o canto / da terra sufocada” (p34). Sendo “incertos todos os rumos / se tornam / no desenho circular / do desalento” (p30). “Pouco importa agora / soletrar canções de vento / quando adagas de lume / cortam a respiração” (p42). Então, “O silêncio é quase táctil” e “Voo sobre as metáforas da existência” (p35). “Espero o fluxo musical / de plantações / resistentes a vendavais”. Não “o sombrio lápis / dos instantes” (p39).
Podemos ver o que não víamos nos alcantilados silêncios da memória, podemos reinterpretar o que interpretámos, agora à luz do que nos devassa e comove. A “Contradição” interpõe-se: “Se me fazia bem amar-te? / não sei… (…) E tenho na cabeça / as grades da prisão / dos teus dedos / pintadas por um sol / de abismos quentes” (p24). No depois que aprofunda silêncios na memória, “O Amor fica dobrado / na colcha de cada dia / no gesto suspenso / de uma hora indefinida. (…) Porque não há ruas / nem sinal de rotas / risquei tudo do mapa / ainda por esboçar” (p26).
Resta ir “seguindo o caminho do sol inexplorado” (p61), apascentando “as palavras / mais frágeis / que não queriam sair / das redes do silêncio.” (p58) e perguntando “se dois pares de asas / e o desejo do vôo / chegarão para inventar / um céu durável” (p77). O “céu durável” de “Quando o Silêncio Falar”.
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