Confesso que já não sei como voltar ao meu normal. Há quinze dias, estava com a bolha; hoje, julgo que terei perdido o ânimo. Estou (em)baralhado e o ambiente não ajuda; está encrespado, emaranhado, salpicado de sujidades. Olhamo-nos ao espelho, seja da televisão ou das ditas redes sociais, e não gostamos. E que podemos fazer? Ir fingindo que não é dor a dor que deveras sentimos? Apenas esperar? Sempre a esperar que a inteireza do pensamento e da ação coincidam e estejam connosco? Não há forma de vislumbrar “A Forma Justa” de que fala o poema de Sophia de Mello Breyner.
Não vou falar dos tantos problemas que se acumulam e se precipitam. P’ra quê? Todos os governantes (e aspirantes a) se dizem perfeitos. Quando transvasam milhões e milhares de milhões para quem está dentro dos seus propósitos, são uma perfeição. E, quando decidem apagar o trabalho efetuado, continuam a julgar-se do mesmo modo. Até mesmo quando estão com o credo na boca tentam exibir-se em estado de perfeição. Tiveram tantos anos para resolver o que tinha de ser resolvido, mas só muito abanados é que começam a sair dos seus labirintos. Só assim, muito abanados, irão diminuir o número de passos do calvário de quem anda por aí com “a casa às costas”. Estará escrito nos manuais da governação que o arrastamento dos problemas não transporta um acumular de ainda mais?
Mas tenho outro assunto que gostava de pôr à consideração dos meus leitores. Refiro-me às palavras de esclarecimento do Ministério da Agricultura a este jornal, a propósito do projeto de regadio de mil hectares em cada um dos concelhos de Castelo Branco e Fundão.
Há alguns anos, as Câmaras Municipais de Castelo Branco e do Fundão uniram-se para apresentarem uma candidatura a esse projeto que assegurava um investimento de 15 milhões. Baseava-se sobretudo no desvio de maior quantidade de água da albufeira de Santa Águeda do que a utilizada no abastecimento público, sua principal função. Pensaria qualquer inocente que inventavam mais um problema para acrescentar aos que a albufeira vem enfrentando face às alterações climáticas e às explorações intensivas que têm enxameado as suas redondezas com poluentes eutrofizadores das suas águas. Águas públicas protegidas de uma albufeira criada para resolver o antigo problema de abastecimento público de Castelo Branco.
Como sabemos, o candidato vencedor nas eleições autárquicas de 2021 tinha condicionado a concretização do projeto à construção da barragem do Barbaído, aprovada há vinte anos, mas enviada para os tão habitados sótãos das calendas. Essa barragem serviria de apoio à de Santa Águeda e permitiria o avanço do projeto de regadio, sem pôr em risco o abastecimento público que, entretanto, foi alargado a partes dos concelhos de Vila Velha de Ródão, Idanha-a-Nova e a uma freguesia do Fundão. Regadio que teria de ser efetuado com cuidados bem medidos para evitar que culturas intensivas ponham em causa a qualidade da água da albufeira, de que há abundantes exemplos. É o que a Plataforma de Defesa da Albufeira defende há anos e o meu pouco esperançado ânimo subscreve.
Pois bem, perante a insistência deste nosso jornal, o Ministério da Agricultura garante que “não está prevista a construção de uma barragem de apoio à barragem de Santa Águeda” e que “está empenhado e continua a trabalhar com as autarquias de Castelo Branco e do Fundão” para que o projeto de regadio siga em frente. Mas, como pode continuar com a autarquia albicastrense a declarar-se contra o projeto?
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