Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Leitores: Cebolais de Cima. As râmolas de sol

António Luís Caramona - 14/05/2020 - 10:04

As râmolas, a exemplo de outros artefactos, equipamentos e mesmo o título dos fios cardados, alguns deles ainda hoje usados na indústria de lanifícios, devem o seu nome a termos de origem catalã.

Partilhar:

As râmolas, a exemplo de outros artefactos, equipamentos e mesmo o título dos fios cardados, alguns deles ainda hoje usados na indústria de lanifícios, devem o seu nome a termos de origem catalã.

Neste caso, râmolas ou ramblas (que em catalão significa passeio, caminho largo) eram utilizadas para a secagem ao sol das peças dos panos, depois de tintos.

Compostas por um esqueleto em ferro, tal como se de um bastidor gigante se tratassem, as râmolas encontravam-se montadas em socalcos, sempre em locais com boa exposição solar. E nelas eram pregadas, abertas e estendidas em todo o seu comprimento, as peças do pano a enxugar. 

Constituídas por duas barras longitudinais em ferro, uma em cima e outra em baixo, colocadas assim em paralelo, sendo que a superior estava fixa e a inferior, movendo-se na vertical, permitia ser regulada em função da largura do pano exporto a secar.

Estas barras, providas de ganchos onde o pano era cravado pelas duas ourelas, tinham de comprimento a medida média dos panos que então se fabricavam, variando estes entre os vinte e cinco metros e trinta metros.

A distância entre as barras, em função da largura do pano, era ajustada por meio de um mecanismo accionado por um pedal que, ao fixar a barra inferior de acordo com a sua largura a trancava deixando assim o pano preso e bem esticado.

Depois de secos os panos eram despregados e entrançados pelo seu comprimento, passando a ficar pendurados em ganchos articulados, de grandes dimensões, que se encontravam fixos nas estruturas verticais de suporte das barras onde ele estivera pregado a enxugar. 

Por fim eram retirados e transportados às costas de um operário, ou no lombo do burro para o armazém do respectivo proprietário onde iriam ser ultimados. 

Ainda podem ser vistas alguns exemplares de râmolas numa propriedade privada à Fontainha, em Cebolais. 

Também na Tapada do Padre António, à Corga, nas antigas instalações da Salavessa, Ramos & Belo, e na Fonte Nova se podem apreciar o que resta dos socalcos onde, em tempos, estiveram instaladas algumas râmolas de sol bem como na rua do Outeiro no logradouro da antiga firma A. Lopes Ferreira.

As râmolas de sol, que aqui descrevo de memória, recordo-as instaladas na empresa Romãozinhos & Belo, localizadas no sítio da Corga.

Foram desmontadas, nos finais de sessenta do século passado e os socalcos arrasados para uma ampliação da fiação e tecelagem da empresa M. Carmona & Irmãos.

As primeiras râmolas de que há referências em Cebolais estavam instaladas na Fonte Nova e eram propriedade de Manuel Ferreira de Matos.

Outras, as ainda existentes na Fontaínha, pertenceram a Manuel Duarte Ramos e depois à Nova Empresa de Ultimação de Lanifícios.

Situado a meio das râmolas, ainda na Romãozinhos & Belo, existiu também um outro artefacto que era usado nos «casacos», isto é, nos panos de lã mais pesados aos quais o mercado exigia um acabamento aveludado. 

Neste caso, o pano saído da barca de tingir, húmido e ainda a escorrer, era aberto e estendido, agora na horizontal e apoiado, transversalmente, por varas de madeira por forma a que devido ao seu o peso em molhado nunca tocasse no chão.

Preso numa ponta, o pano era bem esticado pelo recurso a um sarilho movido na outra extremidade e, nesta posição, era então batido por dois ou mais trabalhadores, os «varejadores», ou «batanadores» por simularem o trabalho do batano ou pisão, os quais, munidos de varas de marmeleiro e trabalhando frente a frente, batiam no pano procedendo à sua feltragem ao mesmo tempo que o limpavam das impurezas e pontas soltas. 

Terminada a operação reuniam-se vários trabalhadores para, de braços estendidos no ar, transportarem o pano seguro das mãos por uma das ourelas, sem nunca o deixarem vincar ou apanhar sujidade, para finalmente o estenderem a secar na râmola ou, ainda, para operação final de tesoura mecânica onde a superfície do pano pelo lado do direito seria nivelada.

Nota: Segundo N. L. Madureira, no seu trabalho Mercado e Privilégios, as primeiras râmolas de sol foram instaladas por Simão Pereira da Silva, em 1777, na sua fábrica na Covilhã. 

 

COMENTÁRIOS