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ChatGPT: Metade sou eu, metade é ele

Mário Afonso - 20/11/2025 - 9:01

O recurso a ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGTP, começa a ganhar espaço também no jornalismo, incluindo na escrita de crónicas. Esta prática levanta tanto oportunidades como riscos que merecem ser ponderados e que já aqui refleti.

Assim, para terminar a minha análise sobre a importância da inteligência artificial em diferentes áreas e profissões, desenvolvo neste artigo uma pequena provocação: a escrita do artigo em colaboração com o ChatGTP, no sentido de dizer “este artigo foi escrito por mim… ou quase”. Aqui vai o resultado desta escrita a meias:

Hoje decidi cometer uma pequena ousadia: escrever uma crónica com a ajuda de uma máquina que escreve. Chama-se ChatGTP, mas podia ter outro nome qualquer, desses que soam a sigla futurista. A proposta é simples: deixo-o falar, corrijo-lhe o tom, e juntos tentamos fingir que ainda se reconhece a minha voz no meio da sua prosa impecavelmente ordenada.

A vantagem é evidente: o ChatGTP nunca sofre de bloqueio criativo. Peço-lhe um parágrafo e ele dá-me cinco. Em segundos. Onde eu hesitaria sobre uma palavra, ele oferece dez sinónimos. É como ter um estagiário hiperativo que trabalha 24 horas por dia, sem pedir salário nem intervalo para café.

Mas aqui começa o perigo: uma crónica não é apenas uma sequência de frases bem escritas. É também o tropeço, a ironia, a pausa para respirar e refletir. É a subjetividade de quem olha a realidade sem a ter vivido. E, sem essa experiência vivida, a sua voz soa limpa demais — e portanto, estranhamente vazia. A crónica, deve carregar um tiquinho de mau humor, um sarcasmo doméstico uma ironia q.b., um modo pessoal, uma memória mesmo que imprecisa. E isso, por mais que o ChatGTP se esforce, isto não vem no manual das suas instruções. A máquina pode escrever, mas nunca levou com uma bola na cara no recreio, nunca rasgou as calças numa corrida ou esfolhou um joelho à apanhada nem ficou preso num engarrafamento da Marginal às seis da tarde.

E tenho um dilema; se deixo que o ChatGTP escreva por mim, o leitor lerá a mim ou a ele? E se, no futuro, todos optarem pela eficiência da máquina, quem quererá perder tempo com o esforço do cronista humano? O pior é que começo a suspeitar: e se o leitor gostar mais da versão polida da máquina do que da minha, no futuro os jornais não dispensarão os cronistas de carne e osso, com os seus problemas domésticos ou existenciais, para publicar só textos de inteligência artificial impecável e sem cáries?

Fico com a sensação de que a crónica de hoje é também uma confissão: usei da ajuda da máquina para a escrever, mas foi só para poder dizer, no fim, que uma crónica digna desse nome não pode ser totalmente artificial. No máximo, pode ser híbrida — como esta.

Enfim, fica aqui a minha confissão: esta crónica tem sangue humano e tinta digital. Metade sou eu, metade é ele. Mas garanto: a parte das queixas, das ironias e do medo do desemprego … essa, ainda, é toda minha.

E para terminar este conjunto de artigos sobre o papel da inteligência artificial, deixo para reflexão, uma citação do jornalista e escritor de reconhecido mérito José Eduardo Agualusa: “Creio que um mau escritor nunca escreverá um bom romance com o recurso à inteligência artificial”, mas, “talvez um bom escritor consiga escrever um romance melhor a partir do momento em que saiba usar esse instrumento”. Ainda segundo Agualusa “não há perigo de os escritores serem substituídos, porque a inteligência artificial mimetiza, reproduz o estilo do escritor, mas a imitação do estilo, normalmente, é ridícula”.

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