Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Comércio: Da ameaça de morte à oportunidade

José Dias Pires - 28/08/2025 - 9:00

Inovar-se, reinventar-se e adaptar-se às exigências e às expectativas dos velhos e novos consumidores são alguns dos desafios a enfrentar pelo pequeno comércio de proximidade tradicional ou não. Falta acrescentar-lhes a procura constante da novidade, pela qual, cada vez mais, os clientes habituais das lojas do pequeno comércio perguntam.

A retoma de conceitos e práticas como serviço de excelência, relações de confiança, proximidade afetiva (familiaridade) e partilha de sentimentos de pertença, são fundamentais para operar a enorme mudança absolutamente necessária para a manutenção ou ampliação das ofertas que ainda existem ou para o renascer do comércio no centro histórico e antigo de Castelo Branco.

Importa formar os ativos operacionais, profissionalizar a gestão e conjugá-la com a assunção de uma estratégia assente na cooperação empresarial apoiada pela eventual constituição de uma central de serviços cooperativos (compras, distribuição, contabilidade e orientação estratégica e empresarial).

Nas grandes superfícies comerciais tudo parecer apelativo: os horários alargados, o conforto, a facilidade de acesso e de estacionamento, a oferta comercial diversificada, as zonas de lazer, contudo as relações com os clientes são frias, formatadas, impessoais, sem a magia de uma relação pessoalizada entre o vendedor e o comprador.

Há muitos consumidores, de vários patamares etários que, passado o entusiasmo inicial da novidade que constituiu o surgimento dos grandes centros comerciais, têm vindo a reconhecer as vantagens do comércio de proximidade, da sua capacidade de oferta, da sua envolvente histórica e cultural, do património identitário, dos afetos que gera e aproveita.

No Reino Unido, na França, Itália ou Espanha, para falar de países que mais facilmente vistamos, o comércio local está vivo e recomenda-se, especialmente nas cidades de média dimensão, como a nossa. Aí, o pequeno comércio acompanha a boa perseveração ou a recuperação do edificado onde se situa, defendendo-se um com o outro. Mesmo em Portugal, apesar da generalizada e evidente crise das atividades comerciais de proximidade, há, fora dos grandes centros urbanos, exemplos que nos alentam a não soçobrar, com Óbidos à cabeça, e que têm conseguido resistir ao vírus da resignação e da desistência e apresentam um comércio local que resiste com vida e dinâmica em espaços urbanos cuidados com intervenções fundadas em estudos e planos estratégicos definidores das áreas de intervenção e respetivas tipologias, de prioridades e calendários e, principalmente, de uma lógica sustentada de ocupação do espaço e de alocação permanente, sazonal ou ocasional de habitantes ou frequentadores.

Quem tem andado atento às questões subadjacentes ao comércio de proximidade e, por projeção natural, ao comércio tradicional sabe que os trunfos mais preciosos de ambos são a qualidade, a produção local (diversidade e autenticidade) e a personalização do serviço prestado ao cliente ao que acrescem as relações de proximidade geradas na interação direta entre vendedor e cliente, a aposta na experiência (conhecimento de facto do que é oferecido aos clientes) pois o ambiente da loja, a história do negócio e a atenção ao cliente são sempre fatores que contribuem para uma experiência de compra única.

Importa estar atento aos princípios indispensáveis da sua valorização: valorizar as forças e minorar as fraquezas. Promover a afinidade e a diferenciação e constituir o comércio de proximidade como ponto de encontro e de referência que anulem ou, pelo menos, reduzam as fraquezas do comércio tradicional, nomeadamente: o estacionamento, os preços muito elevados, a pouca flexibilidade de horários, a dificuldade em distinguir o que é verdadeiramente tradicional das apropriações que o marketing faz do designação, a incapacidade de conciliar modernidade, qualidade e tradição e a adaptação às necessidades dos clientes.

Ainda não generalizamos a prática de horários que permitem fazer compras durante a hora do almoço, depois de sair do emprego, a caminho de casa, sem ter de fazer um desvio de algumas horas para ir a um hipermercado ou de marcar um dia de fim de semana para ir ao shopping fazer compras. Longe disso, e são as lojas das grandes marcas que o concretizam.

É habitual em Espanha o comércio abrir às 10h00, fechar às 15h00 ou 16h00, reabrir às 19h00 e fechar às 21h00. Porquê estes horários, já tive a ousadia de perguntar-lhes. Porque resultam, responderam. Porque têm os potenciais clientes na rua, prontos para fazer compras, e abrem ao sábado e ao domingo, folgando durante a semana.

Acredito que o comércio de proximidade ainda não perdeu a oportunidade do renascimento e sei que há desafios e oportunidades a que não se pode deixar de responder e aproveitar: valorizar a experiência e o conhecimento competente da oferta; estar familiarizado e atento à procura; saber adaptar-se aos novos hábitos de consumo; personalizar o atendimento; criar ambientes acolhedores e oferecer produtos diferenciados que obrigam a uma consistente preocupação autárquica com a promoção do regresso aos centros históricos de moradores / clientes (permanentes, sazonais ou turísticos), cuidar das acessibilidades e dos estacionamentos, localizar aí serviços comunitários de apoio às famílias (nas áreas da saúde, recreio ou educação) e serviços culturais simultaneamente comunitários e turísticos.

Espero ter aberto um espaço de séria, muito séria, reflexão sobre as questões que ultrapassam o palavrear mesquinho da crítica sem fundamento e sem proposições alternativas.

Quando pensarem no comércio de proximidade, de bairro ou da centralidade urbana, lembrem-se de saudar todos aqueles e aquelas comerciantes onde, com frequência, como eu, fazem compras: no talho, na costureira, no quiosque, na retrosaria, na livraria, na mercearia, no café, no restaurante, na loja de eletrodomésticos, no cabeleireiro, na banca dos legumes, na farmácia, na drogaria ou na oficina. Eu faço-o assim: bom dia Artur, Zélia, Palmira, Arlindo, Paula, Carlos, João; José, Manuel; Eduardo, Cristina, Clara, Hélio, Luís e Carlos. Bem-haja por existirem, bem-haja por resistirem e por serem alguns dos grandes prestadores de serviços comerciais do nosso pequeno comércio.

José Dias Pires

COMENTÁRIOS