Um dos temas que acompanhei, no final da década de 2000-2010, com interesse, inquietação e, admito, inicialmente com alguma ignorância, foi a chamada crise do subprime, do crédito tóxico ou de outras designações tecnocráticas que lhe atribuíram.
Na prática, a falência bancária permanece como um dos episódios mais reveladores — e inquietantes — das fragilidades do capitalismo contemporâneo. O epicentro foi os Estados Unidos (sempre os Estados Unidos, como agora na crise energética associada a Trump e à tensão com o Irão), onde instituições financeiras, movidas por uma lógica de lucro imediato e irresponsável, concederam crédito hipotecário de alto risco a milhões de famílias sem capacidade de pagamento. A implosão deste sistema especulativo rapidamente se tornou numa crise sistémica, expondo de forma brutal a interdependência e vulnerabilidade da economia global. Este crédito tóxico era uma bomba-relógio à vista de todos — e acabou por explodir no coração da economia mundial.
As consequências foram devastadoras. Bancos colapsaram, mercados entraram em pânico e milhões de pessoas perderam casas, empregos e poupanças. Governos foram forçados a intervir com resgates bilionários, socializando prejuízos enquanto os responsáveis — banqueiros e instituições financeiras — raramente enfrentaram consequências reais para além da condenação pública. Houve irresponsabilidade sistémica: os lucros são privados, mas as perdas recaem sempre sobre a sociedade. Instalou-se uma profunda crise de confiança nas instituições financeiras e políticas. Ficou a questão inevitável: demasiado grandes para falir ou demasiado grandes para serem controlados?
Nas últimas décadas, a economia passou a depender excessivamente dos mercados financeiros em detrimento da produção real de bens e serviços. Este desvio favorece comportamentos especulativos, como os créditos subprime, onde o lucro imediato se sobrepôs à sustentabilidade económica.
Em Portugal, os efeitos foram particularmente severos. Embora o país não estivesse diretamente exposto ao subprime, a crise internacional revelou — e agravou — fragilidades estruturais já existentes: baixo crescimento, elevado endividamento e forte dependência externa.
O pedido de ajuda ao Fundo Monetário Internacional, em 2011, está ligado à crise do subprime — mas não se explica apenas por ela. A crise funcionou sobretudo como um gatilho que expôs problemas internos profundos. Portugal, com uma economia frágil e dependente de financiamento externo, ficou rapidamente sob pressão. A confiança dos investidores evaporou-se, os juros da dívida dispararam e o Estado viu-se progressivamente incapaz de se financiar nos mercados. Seguiu-se um período de austeridade imposto pela chamada “troika”, com cortes salariais, aumento de impostos, degradação dos serviços públicos e do investimento, além do congelamento de carreiras. O desemprego disparou e a emigração voltou a níveis alarmantes.
Tal como já referi noutro artigo, a entrada no euro trouxe estabilidade monetária, mas também facilitou o acesso a crédito barato, nem sempre canalizado para fins produtivos. Quando a crise surgiu, o país já estava vulnerável.
As desigualdades agravaram-se: em momentos de crise, quem paga são sobretudo os trabalhadores e a classe média, enquanto os grandes grupos económicos se protegem. Isto não é apenas injusto — é estruturalmente imoral. Os governos mobilizaram biliões para salvar o sistema financeiro, mas a pergunta mantém-se: quem pagou a crise? Os mesmos de sempre. O Zé Povinho. Como diz o ditado, quem se lixa é sempre o mexilhão.