“A situação atual da esquerda leva-nos a pensar que há um perigo claro de estes erros (a determinação em ‘última instância’ pelo económico e a ‘inflexível’ prevalência dos antagonismos de classe) se repetirem. Em qualquer domingo vê-se a teoria da ‘classe contra classe’ exposta no Twitter de esquerda, onde liberais como Hillary Clinton são vilipendiados com a mesma linguagem usada contra Trump.” ((Paul Mason, 2021, “Como Travar o Fascismo”, pp. 261).
Se a opção pelo conflito de classes, enquanto esquema interpretativo, se mostrou aquém de um cabal entendimento do surto dos nacionalismos, nos anos 30 do séc. XX, também não é de crer que melhor explique este igual ‘apelo’ aos atuais excluídos da globalização. Nem os seus êxodos político-partidários, agravados pela quebra de fulgor da ideia de uma conclusiva sociedade sem classes a que nos haveriam de conduzir o proletariado ou os seus dispersos herdeiros (DEBITA NOSTRA CCXXIV).
Já por desconfiança dos seus termos de sociabilidade e da habilitação para tal que uma generosa confusão entre ser ‘merecedor’ e ser capaz lhes atribuiu. Já pela dificuldade que sociedades mais heterogéneas manifestam em passar procuração nesta matéria. Já por quebra de um adequado elam de sustentação social e confinamento da sua potencial base de apoio. Já pelo colapso demonstrativo das experiências entretanto vividas, neste campo, a que as suas assumidas vanguardas o levaram, com um tremendo prejuízo ao nível da disputa planetária por uma mais justa distribuição e melhores compromissos sociais e políticos.
E é aqui que importa destacar a preponderância que nelas mantém o estruturalismo, com o seu ‘salto’ de um binário antagonismo de classes para a repartição do mundo em dois enormes hemisférios, na sua expressão geopolítica. O mesmo que, naqueles anos 30, deixava escapar, por minuciosa, a perceção de como, à míngua do reconhecimento de outras identidades, que não as de classe, se desembocava em perversas cumplicidades ou arreigados nacionalismos.
E que agora vem (de)mostrando dificuldade em lidar com a diversidade de sociedades mais complexas, na sua heterogeneidade social e política que nada ganha em ser ‘metida em dois sacos’. Mas sobretudo se mostra incapaz de apreender como, na atualidade, tal bipolarização não só o impede de ‘localizar’ o “povo” de determinados países, como também, noutros, de o desejar mais feliz só porque lhe admira as tutorias.
E até pode dar-se o caso de que, por inércia, se entenda que o invocado materialismo histórico, embora “científico”, apenas serve como instrumento de análise do que se passa no outro hemisfério e não em casa. O que, de imediato, suscita questões relativas ao próprio processo do conhecimento (epistemologia) se é que não de formatação cognitiva.
É que, assim, em qualquer análise, mais facilmente se parte da conclusão adotada para chegar às premissas do que das premissas para chegar à conclusão.