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Crónica: Debita Nostra CCIX

Luís Costa - 11/05/2023 - 10:15


Talvez um dia concluamos que as tais ‘guerras culturais contemporâneas’ tiveram um impacto no realinhamento ideológico das sociedades ocidentais semelhante, por exemplo, ao 11 de Setembro. Se a esquerda continuar a oferecer ao outro lado o monopólio dos valores progressistas como a liberdade artística e de expressão, que não se admire com as gerações de direitistas que por estes dias andará inadvertidamente a criar.” (Francisco Mendes da Silva, Público, 03-03-2023).
Vai longo o debate sobre a questão da escravatura e das suas repercussões no atual viver das sociedades ocidentais, bem como sobre a ‘dívida’ por estas contraída no transcurso do processo de colonização. 
Também não me coibi de nele participar, alertando, não para a relatividade do tema, mas para o perigo dos julgamentos históricos a partir da contemporaneidade. E para como preferiria situá-lo sob o tópico das relações de poder, dada a dificuldade de encontrar sociedades não-europeias em que a conquista não constituísse também um móbil para a escravização (Debita nostra CXLI). 
E que, independentemente da sua amplitude, qualquer destes processos foi igualmente racista sempre que se referia aos povos de outras etnias. Como, de resto, não o foi o abolicionismo, tolerando, embora, a substituição da escravatura pela servidão (sem encargos) das populações acolhidas ao esplendor da Revolução Industrial.
Porém, o que já então me preocupava, era a tendencial predisposição para se assumir na posse de uma definitiva interpretação do Tempo, a “que inspirou todos os totalitarismos e os muitos pensamentos únicos” e que pode não se ficar por aí...
Assim, com as chamadas “guerras culturais”: quer quando dispostas à adoção das ‘vestes’ de uma outra cultura, subestimando as subjacentes relações de poder, que se não ‘travestem’ (Bourdieu); quer quando, ao invés, a proíbem, como obstáculo ao ‘empoderamento’ da sua pretensa originalidade.
Mas ignorando o papel da permeabilidade intercultural no tecer e destecer das hegemonias culturais. Se é que não projetando sobre tais guerras as sequelas de uma mecanizada “Teoria Crítica” que reconduz toda a mudança à fundamental libertação dos oprimidos, por vias tão eficazes quanto revolucionárias.
Ora acontece que, para lá do oportuno debate sobre a eficácia das diferentes vias da mudança social (Debita nostra XXIX), as culturas se enraízam em identidades, moldadas e programadas para reproduzir relações de poder, mas não só...
E que qualquer identidade se vê decisivamente ameaçada, na globalidade, se o diferente não se lhe apresenta pelo lado do que une, na complementaridade, mas pelo do que separa no confronto, enquistando-se em zonas de sobrevivência, refratárias à mudança e empedernidas pela ‘prometida’ razia identitária.
Tanto mais quanto o ‘outro’ investe como detentor de uma ‘revelação’ que iluminadamente o encarta para a definitiva censura das demais mundividências.
Polarizando a sociedade pelos extremos, mas também abrindo mão “dos valores progressistas como a liberdade artística e de expressão”.

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