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Crónica: Debita Nostra CCLVIII

Luís Costa - 26/06/2025 - 9:01

“As classes antagónicas estruturadas no seculo XIX ganharam expressão política quando as contradições socioeconómicas começaram a coincidir com identidades coletivas inconciliáveis. Embora as divisões categoriais nunca tenham coincidido com grupos homogéneos, a narrativa marxista que na Revolução Industrial e depois disso opunha burgueses e proletários só ganhou expressão porque o operariado faminto e explorado dos núcleos industriais ingleses já estava em rebelião.” Elísio Estanque, PÚBLICO, 21-08-2015).

É certo que a grave crise por que passaram as nossas sociedades, desde o séc. XIX à primeira metade do séc. XX, foi muito diferentemente ‘vivida’ (DEBITA NOSTRA CCXLII), mas nem por isso podemos ignorá-la ou deixar de a procurar entender no seu contexto.

E este foi o da erupção de uma inédita ‘crença’ no ‘individual’ e de que o ‘social’ não seria mais do que uma figuração do conjunto dos seus elementos. Acolhendo, assim, o princípio de que o ‘todo’ se não distingue da soma das suas partes, mas sobretudo a ‘ideia’ de que da ‘livre’ competição entre estas se alcançaria um derradeiro equilíbrio social. Como se tem visto…

É de crer, porém, que o “temível conflito” (Rerum Novarum) a que, entretanto, chegaram as incipientes democracias se deva a essa mesma crença. Na medida em que tenha vindo legitimar, e irrefrear, os poderes então emergentes, pelo conveniente pressuposto de que, uma vez decretada uma abstrata liberdade, todos nela poderiam igualmente competir.

De qualquer modo o conflito social ganhou aqui uma inusitada centralidade, não porque fosse algo de novo, mas pelas proporções que pôde ganhar com uma tal normalização do conflito: somos naturalmente ‘feitos’ mais para (con)correr do que para (con)viver.

E a sua primeira, mas replicada, vítima foi o “operariado faminto e explorado dos núcleos industriais ingleses”, não só pela insustentável situação que então vivia, mas porque “já estava em rebelião” contra o regime político que a sustentava, na sua estilização do conflito. Ou seja, a democracia liberal, quer pela incapacidade de demonstrar como todos nela cabiam, quer por, malgrado o intento reformista, poder acobertar um tão contundente processo de desumanização.

Ora, se os nossos parlamentos ainda hoje normalmente competem, não para fixar o mais abrangente “contrato social”, mas para apurar, por vezes até com alguma bonomia, qual das ‘partes’ é que há de vingar, na dita “questão social” a contenda era muito mais rija. Desde logo, pela instalada convicção da inevitabilidade de um decisivo conflito social. Com os resultados políticos que se conhecem, mas não só…

Na própria consolidação das ciências sociais se formaram dois campos de análise, assim designados por “perspetiva do consenso” e “perspetiva do conflito”, conforme o subjacente pressuposto de por onde passaria uma efetiva ‘mudança social’.

Como se esta, no aproveitamento de todos declives, não fosse como a água e precisasse de um qualquer guião para se espraiar.

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