“As falhas da democracia são vitaminas para a direita não democrática. Como aliás já foram para a esquerda não democrática. A democracia não cai às mãos de assaltantes, começa por cair dentro de si. É o mau governo, a desigualdade, a corrupção, a indiferença social e a arrogância dos democratas e das esquerdas que são o viveiro das ditaduras, das aventuras de extrema-direita, de todos os populismos deste mundo.” (António Barreto, PÚBLICO, 30-08-2025).
A tese de Timothy Snyder (2017), de que a dita “política da inevitabilidade”, ao secar qualquer opção governativa que não seja a de uma dedicada ou retocada variação neoliberal, conduziu as democracias a um beco sem saída (DEBITA NOSTRA CCLXVIII), não será a única e não é nova.
Mas vem destacar dois aspetos mais ‘esquecidos’, mas decisivos, para o cumprimento da promessa democrática. A de que a democracia se deve traduzir num benefício que, em geral, seja detetável no quotidiano vivido dos seus cidadãos ou, pelo menos, vislumbrável no quadro do seu horizonte geracional. E a de que, a não ser assim, lhes oferece alternativas que entendam valer a pena experimentar.
É neste contexto que Snyder situa o renascimento do que chama de “política da eternidade”, as acima referidas “aventuras”, fundadas na “sedução de um passado mitificado”, em que “a nação é definida pelas suas virtudes inerentes, ao invés de o ser pelas potencialidades do seu futuro”.
O que, desde logo, pode ser compreensível, tendo em conta que o passado é também a nossa infância, aquela “idade do ouro” em que, para além dos contextos, por regra, nos sentimos protegidos e dispensados de prevenir o futuro. Mas não só.
Teremos igualmente de nos questionar sobre os “percecionados” benefícios da democracia, ao longo dos últimos quarenta anos, enquanto ela se foi ‘açaimando’ a pretexto da “mais barata” globalização que, já por si, havia prescindido de a empunhar enquanto valor político. Fragilizando muitos que assim se viram desativados, ignorados e desprotegidos e procuraram refúgio no ‘reduto’ que lhes restava: o da reconstrução de uma ‘memorável’ identidade social (nacional).
E para quem as políticas identitárias de esquerda, fundadas numa tradição, e no entendimento, do conflito (fratura) como paradigma da mudança social (DEBITA NOSTRA, XXIX, CCIX e CCLXIII), se é que não no princípio da prevalência do individual sobre o social, se tornaram ofensivas. E, deste modo, se prestaram a servir de alibi àquela muito mais ampla ‘privação’, o que nos há de merecer outra reflexão.
Já quanto às alternativas que valha a pena experimentar, elas situar-se-ão no campo do debate ideológico, em que a experiência acumulada ou “a arrogância dos democratas e das esquerdas”, como “viveiro das ditaduras” não pode deixar de ser interpelada.
Em particular, no entendimento de que este é o tempo de uma outra “política da eternidade”.