Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Crónica: Debita Nostra CCLXVI

Luís Costa - 07/08/2025 - 9:01

“O culto imberbe pela modernidade, assente num deslumbramento tecnológico que oculta muita preguiça e manipulação, em que meia dúzia de gestos num telemóvel, explorando três ou quatro funções simples, passam por um saber semelhante ao falar português sem um erro ortográfico a cada palavra, a arrogância de dar opiniões sobre coisas que não se viram, ouviram e leram — tudo isto ajuda a erodir a frágil democracia porque ‘molda’ a cabeça.” (Pacheco Pereira, PÚBLICO, 19-07-2025).

Se a maneira como lidamos com os ‘estranhos’ é um imediato caso de apreciação moral, porque sintoma dos princípios por que pautamos as nossas vidas (DEBITA NOSTRA CCLXV) e perspetivamos a democracia, ´é também suscetível de outras abordagens.

Pode, por exemplo, ser olhada a partir dos contextos que a “moldaram”. O que, não refreando tal julgamento, nos permite afinar a capacidade de a entendermos e ‘tratarmos’. Evitando algum viés, como o de uma análise ‘materialista’ que nas crescentes e multifacetadas expressões antidemocráticas apenas ‘vislumbre’ manifestações de malformação, ignorância ou preconceito.

E se é evidente que, na sociedade portuguesa, hoje vivemos um especial momento de acrescida heterogeneidade demográfica (social), nada nos garante que ele seja inédito, tendo em conta, nomeadamente, o ‘efervescente’ período da nossa expansão marítima. Com uma diferença: a de agora nos situarmos mais entre os “vencidos da globalização” do que entre os seus pioneiros.

O que não quer dizer que no presente contexto de (des)ordem económica internacional, das suas sequelas político-sociais e processos de ‘desumanização’, sejamos todos perdedores. Não o serão os que, “imberbes” na sua ânsia de futuro, se “deslumbram” no ilusionismo das atuais potencialidades tecnológicas. E não o serão os que nelas só encontram o veio por onde escorrer as excreções de um “deslumbrado” novo-riquismo.

Mas convém não esquecer como, no tempo de uma geração, nós ‘assistimos’ àquela impressiva mudança que nos transportou de um quotidiano vivido à volta do ‘local’ e do ‘próximo’ para o de um inabarcável contexto planetário.

Da centralidade da conta bancária para o da dependência do financismo mundial, focado no crédito hipotecário e na imprescindibilidade da dívida. Da palpabilidade do processo produtivo, dos postos de trabalho e dos preços para o da automatização, da ‘mágica’ origem das componentes, do imprevisível desemprego, da descomandada inflação, do mirrar dos salários e degradação do estatuto próprio ou dos filhos. Da confi(ante)ável loja da esquina ao comércio global e aos produtos ‘esquisitos’. Da possível mobilidade pela escola à sua ‘desvalorização’ e ao inalcançável domínio de imparáveis tecnologias. Da ‘autoridade’ e referência da informação à pro(con)fusão das redes sociais. Da festa local às centrais de gestão do entretenimento. Da tradição patriarcal aos insurgentes assomos de feminismo. Da ‘vigiável’ vizinhança ao derrame de tantos ‘outros’.

E quando perdemos qualquer controlo sobre as nossas vidas, até a ‘liberdade’ nos pode (a)parecer como um precipício.

COMENTÁRIOS