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Crónica: Debita Nostra CCLXX

Luís Costa - 02/10/2025 - 9:02

“Aquilo que vimos designando como desencanto com a democracia ou fadiga democrática não corresponderia a nenhuma mudança de preferências e não se explicaria pelo advento das redes sociais, pelos méritos retóricos dos populistas, por angústias existenciais, mas por uma razão muito mais prosaica: os resultados que costumávamos associar às experiências democráticas pura e simplesmente deixaram de aparecer em muitas latitudes.” (Pedro Norton, PÚBLICO, 16-09-2025).

Mesmo sabendo que a História se não repete, já que os seus contextos não são replicáveis, é difícil não descortinar paralelismos entre a atual crise e a dos anos 30 do século passado. Valha-nos a convicção de que, com uma tão ‘favorável’ perda de memória, os erros humanos se repetem, e de que o que aqui há de mais relevante é o modo como tal paralelo se recusa.

E, contudo, o prolongamento da chamada “Questão Social” pelo século XX adiante, com os seus elevados índices de precariedade e desigualdade, tinha vindo a pôr em causa os “resultados” das “experiências democráticas”. Às recorrentes crises políticas, de uma democracia liberal que ‘esquecera’ vastos setores da população, veio juntar-se o impacto da crise financeira de 1929, e o das suas repercussões económicas (Grande Depressão), que atingiram importantes frações da classe média. As tensões multiplicavam-se e as teses revolucionárias alastravam, ganhando especial alento com a revolução russa de 1917. As relações sociais estremaram-se e a violência política, comum desde meados do século XIX, recrudesceu e só viria a aplacar-se com duas sucessivas, ainda que diferentemente pretextadas, guerras mundiais (DEBITA NOSTRA CLV e CLXX).

Tanto ‘prejuízo’ afetou particularmente aqueles estratos sociais intermédios, na sua capacidade de balancear os ‘humores’ sociais. Já por não serem as originais ‘vítimas’ da “questão social”, já porque a democracia lhes augurara melhores dias, já pelo seu posicional temor de assomos revolucionários. As promessas de retorno a um passado ‘glorioso’, à sua consistência normativa, ao seu carácter impositivo e a um ‘empolgante’ líder que os viesse protagonizar, ofereceu-se-lhes como mel a qualquer mosca.

E, numa expectante ressalva do ‘vírus das crises’ que, pelo menos desde Caim, se inoculou nos humanos e que, pela sua vocação predadora, avesso a moderadores (democráticos) equilíbrios, nos ameaça agora a habitabilidade do planeta, encontrou o adequado “bode expiatório”. O ‘outro’, tradicional ‘diferente’, o judeu, que por históricos interditos associava à culpa (iminente especulação financeira), seria então o distinto sacrificado daquele “mal” que hoje vem sendo “banalizado” (Hannah Arendt) pelo estado de Israel.

Na mesma era em que os europeus vasculhavam qualquer um dos recantos deste mundo, não seria a residual presença aqui de um ‘outro culpado’, o imigrante, a ‘oferecê-lo’, em ‘imolação’, num culto “pagão” que lhe vive das fragilidades. Não sabendo cuidar de quem precisa, preferindo ‘utilizá-lo’ na promoção de uma instintiva “cultura de medo” (Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, 12-09-25).

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