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Crónica: Debita nostra CCLXXXVII

Luís Costa - 28/05/2026 - 9:01

“Para onde foram os lucros desta crescente produtividade? Bem, na sua maior parte, (…), acabaram engordando as fortunas dos 1 por cento mais ricos: investidores, executivos e graus superiores de gestão. (…) Outra parte considerável foi para a criação de completamente novos, e basicamente inúteis, postos de gestão, geralmente (…) acompanhados por pequenos exércitos de um igualmente inútil ‘staff’ administrativo.” (Tradução livre de David Graeber, “Bullshit Jobs”, 2018, pp. 180).
A tese de Graeber, cuja fundamentação empírica nos não dispensa da azáfama de o contrapor, visa apenas encontrar uma razoável explicação para a presente consonância entre os enormes ganhos de produtividade e a simultânea intensificação ou extensão do trabalho. Numa escala em que se não pode deixar de ponderar a desproporcional acumulação do rendimento, a nível planetário (Piketty), na sua relação com a ‘codificação’ do trabalho, a nível nacional.
Argumentando que o conflito que este processo geralmente comporta nos terá conduzido à ‘amortecedora’ distinção entre prolíficas e gratificantes tarefas de gestão e administração e as da mais ‘negligenciável’ produção. E de que só isso justificaria que a pretensa sistematização e sofisticação dos saberes tradicionais se tivesse (con)vertido numa artificial multiplicação das tarefas gestionárias. Cuja utilidade, como a de outras afins, se vem tornando difícil descortinar (bullshit jobs).
Deixa-nos, assim, uma tipologia destes “empregos da treta” que, à deriva de precedentes históricos, mas também de uma ‘(es)forçada’ atualidade, nos são apresentados como “construção social”. De cuja responsabilidade se não livra o (pres)suposto ‘utilitarismo’ liberal, apesar dos comuns (pre)conceitos em relação à administração pública, ainda que, como iniciativa privada, tais dotes prevaleçam sobretudo nas “grandes corporações”, ou no seu prestigiado modelo.
Estariam neste caso muitas funções de supervisão (taskmasters), que se diversificaram com certas “teorias de gestão”, mais apostadas na (re)pressão que na “(co)laboração”, gerando “desnecessários supervisores”, ao invés de “desnecessários supervisionados”. Se é que não outros tantos “empregos da treta” de igual modo supervisionáveis. Ou, na mesma linha, o bom (des)empenho de mais agressivos ou manipulativos ‘influenciadores’ (goons).
Mas ainda outras funções como a de ‘servente’ (funkies) cujo número, fundamentalmente, tem a ver com a ‘dimensão crítica’ necessária ao reconhecimento da importância da empresa e respetiva gestão. Ou a de ‘tapador de buracos’ (duct tapers) que, atrás do prejuízo, tem por missão acudir aos danos resultantes da incompetência de inamovíveis superiores. Ou a de ‘fazedor de imagem’ (box tickers) que tanto garante a simulação do uso de ‘nobres’ critérios, como a sugestão de que se auscultam os clientes, se atende às suas reclamações e se preza a sua avaliação. Ou também a ‘composição’ de uma conveniente imagem e ‘eficaz’ comunicação.
De realçar, porém, o destaque aqui dado à dimensão social do trabalho sobre a produtividade, que talvez melhor nos ajude a entender muito do que hoje se passa no setor financeiro.

 

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