Temos visto uma subida de preços na generalidade dos bens e serviços do índice de preços no consumidor e, em muitos casos, para além daquilo que se poderia esperar face ao que são as pressões inflacionistas vindas da oferta. O que isto quer dizer é que, tal como apelamos a uma contenção do nível salarial, eu também gostaria de o fazer ao nível empresarial, para que se refletisse nos preços um grau de conservadorismo que permitisse de facto a inversão deste ciclo de inflação.” (Mário Centeno, Público, entrevista, 03-11-22).
Sinto sempre alguma resistência a comentar temas económicos, por óbvia falta de preparação. Mas é aí que evoco algumas das ‘ensaboadelas’ tidas em “Economia do Desenvolvimento” cujo professor, citando uma outra economista, Mrs. Robinson, nos dizia mais ou menos isto: “todos devemos aprender economia, já que mais não seja, para nos protegermos dos economistas”.
Confesso que tal não me serviu de grande estímulo para que tentasse uma coisa e outra. Mas, pelo menos, atiçou-me o gosto por citar economistas, sobretudo para algum remoque que me seja de feição.
Lembro-me de, há já algum tempo, certo ministro das finanças ter afiançado que o corte (em uma hora) do horário de trabalho correspondia a um aumento salarial. E de então ter pensado como facilmente se poderia chegar à indigência com o sucesso destes aumentos. Pelo menos, quem não tivesse a ‘sorte’ de ficar desempregado, recebendo subsídio de desemprego.
Vem isto a propósito do instituído método de combate à inflação pela contenção do poder de compra, como a direta ou indireta diminuição dos salários. E de como, no pressuposto da sua elasticidade, nele se fixam algumas cartilhas, mesmo quando a “pressão inflacionista” chega do lado da oferta. Levantando, assim, uma legítima dúvida sobre se esta será tão só uma solução técnico-económica, ou antes um produto do vigente ‘’realismo’ político, ao assumir uma natural quebra das cadeias pelo elo mais fraco.
É que de há muito que prescindimos de qualquer capacidade de fiscalização e supervisão política dos processos de produção, deixando-os até, muito neoliberalmente, à mercê de regimes dificilmente recomendáveis. E que nos rendemos às sofisticadas ‘magias’ do financismo. Tendo eu mesmo ouvido dizer que as anteriores políticas monetárias (expansionistas) não visavam o processo produtivo, tendo recuado logo que o sistema financeiro foi inflacionariamente perturbado.
Por outro lado, qualquer partilha da contenção, “ao nível empresarial, para que se refletisse nos preços um grau de conservadorismo que permitisse de facto a inversão deste ciclo de inflação”, parece que irremediavelmente nos condenaria ao vazio das prateleiras dos supermercados.
Não sei é onde é que alguém foi buscar esta ‘apetitosa’ ideia de que os mercados, como o de trabalho, funcionam entre iguais e de que quem não está bem se muda, dispensando, assim, uma atenta intervenção do Estado.