“No discurso público, a verdade factual tem uma dimensão racional, uma vez que requer averiguação, correspondência com as fontes e responsabilidade argumentativa; mas é, sobretudo, relacional: constrói-se através de vínculos de confiança e experiências partilhadas, num confronto honesto com os outros e o mundo. Só a busca partilhada da verdade factual, assumida como bem comum, pode dar origem a uma correta comunicação.” (Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, 2026).
A expansão da Inteligência Artificial, de uma sobre-humana capacidade de processar a informação, mas também dos perigos que as suas “novas geografias de poder” inauguram, constitui um derradeiro teste para as nossas democracias. Desde logo, porque estas mesmas, na sua atual crise, já de alguma forma anteciparam e refletem a perturbação dos tempos que se avizinham.
Com todos os seus defeitos, e com mais ou menos reserva mental, a democracia tem vindo a representar para todos nós, um “tipo ideal” de equilíbrio do poder. Pelo que é natural que se afirme que “a busca da verdade é um seu “elemento essencial”, enquanto “instrumento de participação no bem comum”. Deixando-nos, todavia, um alerta em relação a toda e qualquer “capacidade de influenciar o imaginário coletivo e de apresentar como desejável uma determinada visão da realidade” (Magnifica Humanitas).
É que o exercício da democracia ocorre sempre no contexto das relações de poder que ela própria se propõe regular. E só o seu instável equilíbrio permitirá que “se não nutra apenas de regras e procedimentos, mas, principalmente, de uma leal relação com os acontecimentos e de uma orientação efetiva para o bem das pessoas e do corpo social” (Magnifica Humanitas).
De outro modo, será o dito Poder que, ‘naturalmente’, e no provável acato da convencional ‘letra’, irá quebrar o encanto de tão ambicioso ‘espírito’. Na melhor perceção de quanto aqui se jogará, agora sem ‘(extra)vagantes’ empecilhos, a “capacidade de influenciar o imaginário coletivo” e de a não poder, ‘gentilmente’, desperdiçar.
Os “factos”, no limite, serão, então, o imediato e inquestionável produto desta sua capacidade, podendo até a mesma rotineira ‘letra’ de “regras e procedimentos” vir a sugerir que eles se reivindiquem de uma ‘plural’ legitimidade e se a(re)presentem como “alternativos”.
Não é, assim, difícil de compreender que uma certa ‘perceção iniciática’ das tradicionais ‘praxes’ democráticas se tenha vindo a confundir, por procuração, com os maneirismos da preservação do poder e suas vitualhas. Relegando a construção de “vínculos de confiança e experiências partilhadas, num confronto honesto com os outros e o mundo”. E, frequentemente, convertendo, a seu pretexto, os “defeitos” da democracia em ‘cadastro’ que se veio, ele próprio, a confrontar com os “outros e o mundo”.
Numa desinibida (ir)responsabilidade que, pela sua primordial e substancial natureza, não foge à do “desinteresse pela verdade (que) leva, lenta, mas inexoravelmente, a deslizar para o totalitarismo” … (Magnifica Humanitas)