A generosidade do povo português é, reconhecidamente, uma das nossas melhores qualidades. Basta estar atento às redes sociais e perceber com que admiração novos moradores, muitos vindos do estrangeiro encaram gestos simples que nos são naturais, como o facto de dar a vizinhos uma mão cheia de hortícolas que a nós não nos fazem falta e outros agradecem.
Uma figura nacional que há anos se dedica a campanhas de solidariedade explicava, por estes dias, na rádio, uma campanha de angariação de fundos para auxiliar as vítimas da tempestade Kristin.
A campanha parte da associação de duas empresas, uma que opera no ramo dos combustíveis e outra cuja face mais conhecida é da venda a retalho em hipermercados. Estas duas empresas têm um sistema de parceria há muitos anos, conhecida da grande maioria dos portugueses, em que o dinheiro gasto numa delas pode significar descontos em compras na outra.
Para esta campanha em particular, ficou definido que, por cada euro entregue pelos portugueses destinado a ajudar as vítimas da tempestade, as duas empresas suportam o custo de acrescentar outro tanto.
Em 14 dias os portugueses doaram 900 mil euros anonimamente. Cada uma das empresas vai contribuir com 500 mil euros.
Como é que o dinheiro vai chegar onde deve? Através de uma rede de parceiros (instituições de solidariedade social, freguesias e municípios) que distribuirão um cartão que pode ser usado em compras numa rede de lojas (dos grupos económicos em causa).
A empresa do ramo dos combustíveis registou em 2025 um lucro recorde de 1,15 mil milhões de euros com um aumento de 20% em relação ao ano anterior.
A outra, no primeiro semestre de 2025 registou um lucro de 102 milhões de euros, o que representa um aumento de 41% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Da minha parte e relativamente a estas empresas, espero que os trabalhadores destas empresas nas zonas afetadas tenham sido tratados com a atenção que lhes é devida. Gostaria de ler que as suas entidades patronais tinham criado meses de salário adicionais para fazer face às despesas que significa voltar a pôr a vida de pé.
Da parte dos seus fornecedores nacionais, gostaria de perceber que os valores que lhes são pagos pelos seus produtos foram aumentados, sem aumentar ao preço cobrado ao consumidor final.
Quanto à generosidade em duplicar o valor dado pelos portugueses, gostaria de pensar que não teria somente em vista o facto de «No caso das empresas, os donativos são considerados dedução no seu lucro tributável, sem limite quando concedidos a entidades públicas — por exemplo, o Estado, as Regiões Autónomas, as autarquias locais — ou, em certas circunstâncias, para dotação inicial de fundações de iniciativa exclusivamente privada que prossigam fins de natureza predominantemente social. O valor dedutível corresponde a 140 % do seu total, quando se destinarem exclusivamente à prossecução de fins de carácter social, a 120%, se destinados exclusivamente a fins de carácter ambiental, desportivo e educacional, ou a 130% do respetivo total, quando forem atribuídos ao abrigo de contratos plurianuais celebrados para fins específicos.
Fora dessas situações, os donativos são considerados dedução até determinados limites (maior ou menor, consoante os fins sociais patrocinados) do volume de vendas ou dos serviços prestados das empresas, se atribuídos a IPSS ou instituições equiparadas ou de utilidade pública que prossigam fins de caridade, assistência, beneficência e solidariedade social e ainda cooperativas de solidariedade social, entre outras. Os donativos têm um valor dedutível de 130 % do seu total ou mais (até 150 %), quando se destinem a custear medidas sociais específicas referidas na lei.», tal como descrito na página da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Sobre esta campanha, apetece ainda ir à sabedoria popular para lembrar que «nem tudo o que luz é ouro».