Os usos da terra e tudo a que a ela dizem respeito, tinham alicerces em palavra, assinados com aperto de mão. Aqui cabia quase tudo: dias de uso de água, passagens a pé, uso de forno comunitário, compra de animais ou terra. Se uma das partes rompesse esse princípio, começavam ódios e mau viver que atravessava gerações.
Ser pessoa de palavra era, por isso, uma qualidade importante. Significava confiança. E confiança significa respeito.
Nos dias que correm assistimos em direto a uma encenação (mais uma) de avanços e recuos de intenções, que culminou em vergonha e descrédito de instituições, que minam a credibilidade de um sistema que nos governa.
A confiabilidade de acordos, a palavra dada, não é uma parte menor da atividade pública. A sua erosão significa a erosão do próprio sistema a cada dia que passa.
Discordar, debater argumentos, fazer valer perspetivas faz parte do governo do bem comum. Apoucar, falhar acordos, não ser confiável, retira ao sistema a sua forma de poder agir.
Se pensarmos que uma das partes, aquela que falhou o acordo, tem como objetivo exatamente isso, ou seja, substituir a democracia, percebemos que não existe inocência neste jogo de avanços e recuos que vemos acontecer no coração do sistema democrático.
Por isso, quando um partido que governa o País se aproxima de quem não é digno de confiança, de quem não tem palavra e já o demostrou várias vezes, é legitimo perguntar porque é que o faz. Porque é que insistentemente se aproxima de uma força política que vai fazer cair por terra a aplicação de medidas, a eleição de pessoas para cargos internos ou externos à Assembleia da República que representam o Sistema Democrático ao seu mais alto grau?
Sabemos que um sistema dá lugar a outro quando a confiança nesse sistema se esboroa. Sabemos que uma das partes desta equação quer a implantação de um novo sistema de governo. A pergunta que resta é então, o que quer mostrar o Governo Português com esta contínua vergonha de que se cobre a cada vez que um acordo falha? Porque continua a procurar acordos com quem não tem a prática de ter palavra?
A verdade é que se «à primeira todos caiem, à segunda só cai quem quer», fica por saber o que quer realmente o Governo de Portugal.