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Crónica: Uma história da alma sertaginense

José Manuel Maia - 16/10/2025 - 9:00

Na encantadora vila da Sertã, carinhosamente conhecida como a “Princesa da Beira”, ergue-se um edifício que é testemunha viva de séculos de história: o Convento de Santo António, hoje transformado no elegante Convento da Sertã Hotel, do grupo Santos & Marçal.

O edifício, testemunha silenciosa de séculos de vivências, viu transformar-se a sua função ao longo dos tempos: de convento, a prisão, e hoje a um elegante hotel que acolhe viajantes e locais com igual hospitalidade.

Para quem, como eu, nasceu nesta terra, o convento não é apenas pedra e arquitetura. É memória viva de uma comunidade que ali encontrou abrigo, espiritualidade e, em certos períodos, até penitência. Cada pedra parece sussurrar histórias de frios corredores, de rezas ao amanhecer, de passos que ecoavam por claustros silenciosos e de vidas marcadas pelos eventos que moldaram a Sertã.

Fundado em 1634 por Frei Jerónimo de Jesus e Frei Cristóvão de São José, o convento pertenceu à Ordem dos Frades Menores – Província de Santo António. Com a sua igreja imponente, claustro sereno, oficinas, poço e uma biblioteca rica, foi um centro de espiritualidade, educação e cultura. Os frades contribuíram decisivamente para a formação de jovens sertaginenses, lecionando Latim em 1772 e, poucos anos depois, acolhendo uma “escola de ler, escrever e contar” determinada pela rainha D. Maria I.

Após a extinção das ordens religiosas em 1834, o convento passou por várias mãos privadas e chegou a ser residência de Maria Clementina Relvas, irmã do famoso José Relvas. No século XX, a Câmara Municipal da Sertã adaptou o edifício a quartel da GNR, cadeia civil e escola primária. Cada transformação acrescentou camadas à sua história, preservando a sua relevância para a comunidade.

Em 2013, após um profundo e excelente trabalho de reabilitação, realizado pelo grupo “Santos & Marçal”, o antigo convento ganhou nova vida e nova vocação: transformou-se no Convento da Sertã Hotel. Hoje, quem visita este espaço pode apreciar o equilíbrio entre o respeito pela traça histórica e o conforto moderno. Caminhar pelos corredores é sentir a história respirar; olhar para o claustro é quase ouvir os ecos distantes das vozes que ali viveram.

Para mim, filho desta terra, o Convento de Santo António é mais do que um edifício bonito. É uma memória viva, um elo entre séculos, um símbolo da Sertã. Ali, passado e presente encontram-se, convidando cada visitante a conhecer não só um hotel de charme, mas um verdadeiro pedaço da alma sertaginense.

Visitar este hotel é, assim, viajar no tempo: é caminhar por séculos de história, ouvir os ecos do passado e, ao mesmo tempo, experimentar o conforto do presente. É a Sertã em toda a sua autenticidade — um convite a conhecer, a recordar e a apaixonar-se por cada recanto desta terra.

 

*Docente da Unidade Politécnica do Instituto Universitário Militar; Investigador do HTC – História, Territórios e Comunidades da NOVAfcsh

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