Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Debita Nostra XXXIV

Luís Costa - 07/04/2016 - 10:55

“Os mais recentes alargamentos da UE induziram consequências muito relevantes sobre os seus equilíbrios internos, alterando a relação de forças no seu seio, muito em especial potenciando o peso relativo da Alemanha, que o final da Guerra Fria havia indiciado. A consequente expressão, em termos dos tratados europeus, dessa nova realidade, conduziu a mudanças qualitativas importantes no caráter das instituições da UE, que conduziram à redução da capacidade de afirmação dos países mais frágeis.” (F. Seixas da Costa et al., Portugal no mundo: um debate inadiável, PÚBLICO, 18-03-16)

É deveras refrescante que, no preciso final de dez anos de uma “magistratura de influência”, tão atreita à inócua divisa do “eu bem avisei”, surja agora uma reflexão do tipo da que acabo de citar e que há de ser importante prosseguir. Não tanto pela pluralidade de perspetivas de que procura ser o denominador comum. Mas pelo que significa de elasticidade estratégica, num contexto em que a tradicional rigidez do pensamento sobre a matéria parece querer deixar-nos à mercê da insuperável fluidez do presente domínio financeiro (DEBITA NOSTRA XXXIII)

O equacionamento de três soluções possíveis para a Europa (a integracionista, a sulista e a matizada, aproveitando o precedente que o Reino Unido constitui) e o vislumbre de alguma outra que por aí possa existir, têm pelo menos o condão de exorcisar um fantasma: o dos costumados slogans que iludem sempre sugeridos mas alienados estudos, a cargo de qualquer entidade anónima ou de responsabilidade limitada.

É que, como o ilustra a releitura exata das afirmações coincidentes com a nacionalização do BPN, as respostas-feitas, um dia modeladas “ad eternum”, mesmo que a partir das mais elaboradas formulações teóricas, apresentam bem comprovadas debilidades políticas.

Desde logo, porque um suposto caráter estrutural as torna insensíveis a significativos dados conjunturais, como os referentes ao projeto europeu; surdas a apelos mais imediatos, como os do quotidiano da população grega; tabeladamente previsíveis, como se infere do corrente comentário político; e habitualmente mobilizadoras, como o demonstra um redundante alcance eleitoral, mesmo que em períodos de inopinada crise.

Depois, porque ao contrário do que possa parecer, nos tornam muito mais vulneráveis aos reais perigos do atual desgoverno mundial. À semelhança, aliás, do que acontecia com um tal Pedro que, à força de reinvocar a iminência da estrutural ameaça, desguarnecia a aldeia das suas mais elementares defesas, em relação à definitiva incursão de um não menos voraz e conhecido Lobo.

Depois ainda, pela capacidade que manifestam de se autocomprazer com as eternas certezas e a correspondente coerência, tão suspeitamente acarinhada, aliás, pelos seus mais couraçados adversários políticos. Mas que sempre procuram (con) (a)firmar ao menor pretexto, mesmo sabendo da universal evidência de que até um relógio parado estará certo duas vezes por dia.

Talvez seja este o momento de refletir a melhor estratégia para nos inserirmos na resposta global ao que é sentido como uma global ameaça. Mas do que menos precisamos hoje é, certamente, de que mais alguém nos venha repetir: “eu bem avisei”!

COMENTÁRIOS