Já conto e já conheci muitos verões. Por aqui nunca houve verão sem calor, mas nada comparável às "ondas" de agora, tão insistentes, excessivas e sufocantes.
Já conto e já conheci muitos verões. Por aqui nunca houve verão sem calor, mas nada comparável às "ondas" de agora, tão insistentes, excessivas e sufocantes. Tanto eu gostava dos dias grandes e de tempo quente. Nada me faltava, nada me metia medo. Nas horas em que o sol mais apertava, havia boas sombras e conversas arrastadas. Ou bons mergulhos e brincadeiras nas águas do nosso rio. Nesta idade, em que já tropeço nas pedras do caminho e nas ideias, não penso nem me atrevo a ir ao rio e voltar. Rego a horta, manhã cedo bem cedinho, e ouço a linda rola que sem saber para mim canta, pousada nos pinheiros ou nas laranjeiras. Vou aos cafés nas horas mais brandas e acessíveis. Não sei nem acho que fazer no resto do tempo, no rasto dos dias. Por mais que descanse - ou tente descansar -, estendido no velho sofá com a ventoinha por perto, sempre cansado me sinto. Adormeço e acordo mais adormecido e espantado. Precisava de companhia, de "refúgios climáticos" e afectivos. Precisava das tuas palavras, das tuas histórias e tentações.
Não há volta a dar, quem por aqui nasceu e se criou por mais vidas que invente e por mais mundos que percorra parece que regressa sempre ao princípio, agarrado às heranças familiares e culturais. Na memória das memórias que passavam de geração em geração. Ainda temos - sempre tivemos - as nossas formas de datar o passado, os nossos modos de contar a vida e de assinalar pequenas ou grandes efemérides. Bastava alguém dizer - em tal dia como hoje, há 50 anos ou mais… - e logo se adivinhava que vinha aí um rosário de recordações e saudades, cruzando palavras e silêncios, lágrimas e sorrisos. Em tal dia como hoje: fiz o exame da quarta classe; comecei a guardar cabras; fui à cidade e andei na camionete da carreira pela primeira vez; a minha madrinha deu-me um anel e uns brincos; talhei a primeira blusa na modista que me aceitara como aprendiz; em Dia de Reis ainda andávamos à azeitona nas grandes quintas de Castelo Branco; apanhámos um grande susto com um avião a passar tão baixinho que nos levou os chapéus e quase nos atirava ao chão; vimos dois lobos na lomba das macieiras; andávamos na eira a malhar o trigo e armou-se uma trovoada medonha; fomos à romaria da Senhora dos Remédios e o meu homem pediu-me namoro; correram os pregões do nosso casamento na igreja matriz; nasceu o nosso João ou a nossa Maria; comprámos a primeira junta de bois na feira de São Jacinto e comemos uma grande melancia; trocámos de burro na feira de São Francisco; casou-se a minha irmã; voltámos das ceifas na Espanha e no Alentejo; entrei na Marinha; alistei-me na Guarda Fiscal, na GNR ou na Polícia; fomos a salto para a França; chegou a luz à nossa terra; partíamos a pé para Fátima; morreu o meu querido irmão; morreu a minha santa mãezinha...Expressões e sentimentos singelos, na singeleza de sentir e de viver. Romances que ninguém escreveu, filmes que ninguém filmou. Retratos a preto e branco, ou retratos nenhuns. Em tal dia como hoje, tanto eu podia contar. Outras são as histórias que ainda conto ou aparecem… Falo muitas vezes dos meus antepassados, que trago no pensamento. Talvez seja eu que me lembro deles, talvez sejam eles que se lembram de mim…
Diversas seriam as vidas que talvez me esperassem, mas calhou-me aquela que talvez ninguém imaginasse. Professor me tornei na universidade que só de nome conhecia. Pastor nunca eu fui, a não ser de palavras, amores e ilusões, mas não falta quem insista em tomar-me como tal. Ainda recentemente voltou a acontecer. Encaminhava-me para a horta naquele escaldante fim de tarde. Mal saí do carro, que estacionei no sítio do costume, um condutor parou e pela janela me perguntou se eu andava à procura de cabras. Estranhei a pergunta, mas bem a entendi ao relatar-me que avistara duas perdidas na estrada entre as Teixugueiras e os Calvos. Minhas não eram aquelas e outras cabras, mas depressa apareceu o dono. Pastor ou ganhão nunca eu fui, mas gostaria de ter sido se tu fosses mondadeira e quisesses casar comigo. Às vezes imagino-te na voz e nos olhos de outras mulheres que casualmente encontro. Olhos negros/olhos claros, portugueses ou africanos.
Engendrei esta crónica fechado em casa ou a espairecer nos cafés mais próximos, longe do vento, longe do mar. Atordoado pelo calor e pelo correr da vida. Corria o mês de Julho no seu décimo dia. Pouco antes haviam chegado, na mensagem do dia 8, estas palavras que tanto dizem ou querem dizer: "Numa tarde de verão, o que me consome, entre outras coisas, é isto de sentir o tempo passar e não ser capaz de fazer o que quero em cada momento. O tempo outra vez a ditar as regras e eu sem as entender. Ainda que eu pare os relógios, a passagem acontece igual. Falta-me a capacidade para entender este desconcerto. Um abraço fraterno”.
Em tal dia como hoje, conheci-te naquela praia tão nossa, naquele verão tão doce e inesquecível. Ficaste nos meus olhos e no meu coração a vida inteira…