Quem tenha estado atento ao clima social e político dos últimos tempos, ter-se-á dado conta que o país tem ritmado o seu percurso, entre dois polos principais. Entre a esperança colaborante e o azedume negativo. Sentimentos que após as últimas eleições, se têm vindo a revelar dia após dia.
Entre os que privilegiam um certo otimismo, encontra-se o PS e os partidos que apoiam o seu governo: BE, PCP e Verdes. Se por um lado, tentam manter um certo distanciamento da governação, por outro, na hora da verdade, não têm faltado com o seu voto para defenderem no Parlamento, as principais políticas propostas pelo governo, num clima colaborante, pelo menos não hostil. Mesmo as centrais sindicais têm manifestado alguma aceitação das medidas do governo até esta altura do campeonato.
A estas forças políticas e sociais, junta-se ainda um certo jornalismo que tem respeitado o rumo que o governo de esquerda tem imprimido. Salários e pensões melhorados, reforma educativa, embora polémica, aceitável por muitos pais e educadores, algumas medidas positivas na saúde, a contentar alguns sectores sociais, promessa de livros gratuitos para a primeira classe no próximo ano letivo, as scuts vias mais baratas a partir do Verão, são já algumas das medidas que potenciam uma visão esperançosa de melhores dias.
Mesmo o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, nas suas contínuas e oportunas intervenções públicas, não tem deixado de puxar pelos aspetos positivos do governo, chegando mesmo a criticar aqueles que só pensam em eleições antecipadas.
Por outro lado, em contraponto, as vozes aziagas, também se têm manifestado, ruidosamente, sobretudo no Parlamento, em alguma comunicação social e nos Congressos partidários.
A sua tese é a seguinte. Este governo irá cair dentro de momentos. As suas medidas demagógicas não têm sustentação. O melhor é manter-se o país debaixo de tensão eleitoral “pró que der e vier”. Com a derrocada da “geringonça”, pensam as forças da oposição, cá estaremos novamente para regressar aos últimos quatro anos da política da troika, única adequada à nossa condição de pedintes.
Paula Teixeira, membro destacado do PSD e sua porta – voz no discurso do 25 de Abril, na Assembleia da República, limitou-se a proclamar mais uma vez, a posição do maior partido da oposição. A ex-ministra da Justiça não teve pejo de criticar os denominados traidores dos seus colegas no governo, que negociaram com as instituições europeias, durante o último resgate financeiro. Um discurso azedo onde a deputada chegou a verdascar os seus opositores políticos, denotando neles “um odor a salazarismo mais bafiento e ao ridículo mais agudo”.
Puxando a esquerda para a direita, tentou assim empurrar os que dela discordam para uma zona política, onde o mal, em plenitude, residisse.
Os portugueses, perante esta situação, terão dificuldade em acreditar nos diversos apelos, apregoados por tantos sectores políticos, económicos e sociais, incluindo a Igreja e o Presidente da República, para que os partidos se entendam quanto aos principais e candentes problemas com que o país se encontra confrontado, a nível da segurança social, justiça, saúde, educação, finanças e demografia.
A oposição, seja ela qual for, por imperativo democrático, deve apresentar ao eleitorado soluções alternativas, mas nunca se poderá tornar num grupo de aves agoirentas, limitando-se a carpir. Lançar pontes e abater muros, tornou-se hoje uma urgência nacional.