Segundo noticiou o Expresso da semana passada “a desigualdade salarial nas grandes empresas quase duplicou”. Enquanto a remuneração dos gestores subiu 47% em 10 anos, a dos trabalhadores recuou 0,7%. E dá exemplos: o CEO de Jerónimo Martins ganha 186 vezes o salário médio bruto dos funcionários, e o da Sonae recebe 82 vezes mais. Com tudo isto não admira que a economia portuguesa seja a 13.ª mais lenta do mundo, estando na União Europeia apenas à frente da economia grega e italiana. Se a riqueza fosse distribuída pelos trabalhadores seria possível eles investirem em bens de consumo, como vai quase só para os gestores, é mais provável ir a para a paraísos fiscais. Já que a nossa carga fiscal foi de 36,4% do PIB, em 2022, o peso dos impostos aumentou neste ano 14,7% em termos nominais, atingindo os 87,1 mil milhões de euros, é natural que quem pode fuja para um paraíso a fim de ganhar ainda mais. O povo que pague os impostos, a inflação e os salários milionários…
É sem dúvida o sistema capitalista no seu melhor, e nem os protestos, as manifestações, ou as sucessivas greves podem fazer nada contra estas situações. Menos eficazes ainda são as audições parlamentares onde os que são inquiridores e representantes partidários estão feitos com os que são inquiridos numa perfeita promiscuidade.
Diz o nº 22 da Evangelii Gaudium: “Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo, e em definitivo problema algum. A desigualdade é a raíz de todos os males sociais”. E o nº. 203 acrescenta: “A vocação de um empresário é uma nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida, isto permite-lhe servir verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos”.
Agostinho Dias
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