Pensar em crianças é pensar em atividades, conteúdos, aprendizagens, movimento…
Elas sobem, descem, saltam, correm, mexem onde não devem, desarrumam, perguntam sem parar, chamam permanente para terem atenção, estão sempre ON, só param quando estão a dormir. Mas ser criança é isso mesmo. É explorar, alterar, descobrir…
Para esta ânsia de movimento e exploração, quanto mais ativas estiverem as crianças melhor (será?). É certo que ficam mais cansadas, facilitando o descanso de todos, e, supostamente, as suas capacidades aumentam, daí “carregarmos” as crianças com quantas mais atividades melhor.
Esta é a realidade em que vivemos. As famílias sem tempo para acompanhar as suas crianças convenientemente, assiste-se a uma corrida desenfreada de instituições, que proliferam na nossa sociedade, querendo ganhar, e manter os “clientes” felizes, entenda-se que os “clientes” destas instituições não são as crianças, mas sim os seus pais. Assim, criam-se pacotes com as mais variadas atividades, com o intuito de ocupar as crianças o máximo de tempo possível.
No entanto, que tempo livre têm as nossas crianças? Que momentos de lazer lhes promovemos? Será que as crianças não necessitam de períodos OFF? A resposta parece demais evidente, é claro que sim! Contudo, os momentos de lazer sem compromissos, os tempos livres dedicados ao ócio, quando as crianças e os adultos podem estar com a mente livre, são cada vez menos.
Para se aprenderem coisas novas é, também, necessário a mente estar livre, “desocupada”.
Segundo Olivier, “Como não gostamos de perder tempo, temos dificuldades em perceber que os nossos fi lhos precisam de muita maior liberdade. Para nós, o importante são os estudos, o sucesso escolar, as suas possibilidades de virem mais tarde a exercer uma profi ssão bem remunerada. Sendo assim, como é que podemos admitir que eles têm direito aos tais lazeres de que falam todos os especialistas infantis?” (1976, p.10)
Havendo pouco tempo para o ócio, também o tempo para o Brincar é diminuto. A Brincoterapia está em extinção!
Não se nega a importância de programar as atividades do quotidiano, mas não há necessidade de “invadir” as redes sociais com planifi cações de atividades para manter as crianças ocupadas. A tendência dos adultos é imporem as suas regras às crianças, não lhes dando oportunidade de escolha.
Confiemos no instinto infantil e deixemos as crianças serem “donas” do seu tempo. Não fazer nada durante um período não é desperdício de tempo, pode até ser um investimento. Dar tempo às crianças para não fazerem nada, promovendo o ócio, é deixá-las livres para brincar ao que quiserem, ajudá-las a descobrir os seus limites e as suas competências.
Criando as suas brincadeiras, dão asas à imaginação e ganham liberdade…e o tempo sem fazer nada é onde tudo acontece. “Os tempos livres são espaços simultaneamente de desenvolvimento pessoal e social ou, pelo contrário, de destruição.” Pereira (2002, p.105)
Todos têm direito ao Lazer associado ao Ócio, crianças e adultos. Os tempos de ócio constituem uma ferramenta essencial para “ensinar” o que é a liberdade, descobrir os limites, fomentar a responsabilidade e ganhar capacidades que lhes vão permitir resolver problemas, preparando as crianças para o futuro. O Lazer é de extrema importância, ajuda à sociabilidade, à tolerância, estimula a componente emocional, torna as pessoas mais felizes e alegres. Fazendo o que se gosta, ganha-se tempo para ser feliz.
Pais, brinquem com os vossos filhos. A participação dos pais nas brincadeiras dos filhos, quando eles pedem é benévolo e saudável, mas siga as regras das crianças, não as do adulto...