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Leitores: Nos Montes da Senhora (e na Beira Baixa). O impossível está a ser possível

Rodrigo Tavares - 27/06/2024 - 9:37

Há muitos anos que a população dos Montes da Senhora, terra do meu pai e dos meus avós, na região do Pinhal Interior, deixou de conjugar o futuro simples do indicativo.

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Há muitos anos que a população dos Montes da Senhora, terra do meu pai e dos meus avós, na região do Pinhal Interior, deixou de conjugar o futuro simples do indicativo. Empolgam-se com o pretérito perfeito, resignam-se com o presente do indicativo, mas evitam usar o futuro. As duas escolas primárias, cheias de crianças como colmeias nos anos 50 e 60, há muito que estão vazias ou têm outros usos. A maioria da população fugiu do assombro da pobreza para a Europa Central, alguns deles a pé e com um cajado. Outros voltaram-se para Lisboa, à procura de uma ocupação que escondesse a baixa literacia. Hoje sobram 569 eleitores na freguesia (dados Ministério da Administração Interna, 2024). O futuro dos Montes, temido pelos residentes locais, poderá ser idêntico às aldeias de xisto e granito em ruínas, expostas como carne seca nas beiras da estrada nacional que liga os montenses a Castelo Branco, a apenas 40 km de distância. Todos o sabem, ninguém o comenta.
Mas no pós-pandemia começaram a chegar estrangeiros. Licenciados, com poder aquisitivo e vivências em vários outros países, multilíngues. Estão a deixar-se atrair para os Montes da Senhora e para várias outras vilas na Beira Baixa pelo contacto com o campo, pelas boas infraestruturas, pelas gentes curiosas e hospitaleiras. Este mês convidei vários deles para a adega quase centenária do meu avô, um lugar que ainda cheira a vinho apesar de há décadas não haver quem o produza. Há gente da Austrália, da Chéquia, de Santa Lúcia nas Caraíbas, do Brasil, de Israel, dos EUA, da Alemanha, dos Países Baixos, da Inglaterra e outras origens. E também há jovens portugueses, novas famílias, enfastiadas das vidas urbanas. 
Vieram para conjugar o futuro simples do indicativo. Trazem vontade de criar vestígios de novas vidas, de fomentar a economia local, de sentar os filhos nas cadeiras das escolas. Partilham com os idosos novas técnicas de agricultura regenerativa e de economia circular. Vendem produtos inimagináveis nos comércios locais. Possibilitam que as poucas crianças dos Montes treinem línguas estrangeiras fora dos muros da escola. E os velhos montenses acolhem-nos com um sorriso envergonhado de descoberta. Não há casos registados de intolerância ou discriminação. 
Mas na aldeia falta habitação. Sobram imóveis de xisto em ruínas, mas não há casas condignas para acolher os novos habitantes. Como são estrangeiros e não dominam as burocracias locais nem têm contacto com os proprietários dos imóveis, muitos deles emigrados há muitas dezenas de anos, começa a latejar um sentimento de frustração. “Do you know any decent house we could move into?” é a pergunta que mais fazem. É aqui que o poder local, tanto as câmaras municipais de Proença-a-Nova, Sertã, Oleiros e de Castelo Branco, quanto as respetivas juntas de freguesia, têm um papel a desempenhar. Precisamos de cuidar destas novas famílias de residentes na Beira Baixa como os velhos emigrantes portugueses não foram cuidados nos outros países de acolhimento. Não é de fundos europeus, subsídios públicos e subvenções a que me refiro. Um bom trabalho autárquico não depende do acesso a recursos de terceiros, desresponsabilizando-nos. Os novos autarcas deveriam ser os velhos párocos das aldeias, cuidando dos seus poucos habitantes como um minério que lhes dará um futuro. Se um novo residente dos Montes da Senhora visitar a Junta de Freguesia à procura de ajuda para encontrar uma casa ou de diretrizes para restaurar uma, que informações receberá? 
Muitos destes novos residentes também não estão eufóricos com a qualidade das escolas na região. O ensino público em Portugal, diga-se de justiça, não é significativamente diferente em 2024 do que era no pós-25 de abril. Talvez tenhamos adicionado Sophia de Mello Breyner e José Saramago aos currículos, mas continuamos a ensinar conceitos abstratos e a incentivar a memorização dos alunos em vez da aprendizagem experiencial e do sentido crítico. Muitas escolas com uma estrutura pedagógica distinta – baseada em projetos, em investigação, gamificação, na personalização, com um pendor mais cooperativo, de exploração socioemocional e com forte promoção do elo empírico com a natureza – estão localizadas nos grandes centros urbanos. Nas cidades há escolas para promover o contacto com a Natureza. E no interior do país, onde há Natureza, faltam escolas. 
Os poderes públicos e autárquicos deveriam facilitar a criação de novos estabelecimentos de ensino, com novos métodos pedagógicos, que pudessem transformar velhas aldeias em novas escolas a céu aberto. 
Na Beira Baixa temos bons exemplos nacionais e internacionais de boas práticas de integração. Em 2023, o Fundão foi nomeado capital europeia para a inclusão e diversidade. Cuidar bem dos imigrantes que se mudam para a Beira Baixa não é um ato filantrópico ou humanista. É um gesto de sobrevivência. Nossa, não deles. 

* Albicastrense, Professor Catedrático Convidado na Nova School of Business and Economics (Nova SBE) e nomeado Jovem Líder Global pelo Fórum Económico Mundial.

COMENTÁRIOS

JMarques
à muito tempo atrás
Lirismo, sonho e utopia.