A América do Norte acaba de viver a maior mortandade, por invocação de razões religiosas, após o horror das Torres Gémeas de Nova Iorque. Uma discoteca, banhada em sangue – cerca de uma centena, entre mortos e feridos - viveu o indizível. Mais uma vez, o gatilho tenebroso foi acionado pelo dedo criminoso de um fanático religioso.
Deste modo, o tema da religião e das religiões não se pode esconder à nossa reflexão. Se todas pregam a paz, porque derivam para ações tão criminosas? Ontem como hoje, as cruzadas religiosas em nome de Deus, têm sempre acompanhado a história do homem. Mata-se porque “deus o quer”. Uma incongruência que tem permitido assassinatos em massa.
Quando se pensava que com o galopante ateísmo ocidental, a “morte de Deus” estava para breve, eis que a invocação de Deus (Javé ou Alá), diariamente tem saltado para as parangonas dos media, pela pior das razões. Deste modo, a temática religiosa vai ganhando paixões e ódios. Desde a América à Europa, da África ao Médio-Oriente.
Afinal, quando alguns pensadores já apregoavam a “morte de Deus”, eis que afinal vamos assistindo ao “regresso de Deus”, na feliz expressão do nosso filósofo maior, Eduardo Lourenço.
O proliferar de seitas religiosas na Europa - Portugal bem as conhece - muitas delas oriundas da Américas, tem conhecido nos últimos tempos um aceleramento tal, que já podemos falar de um novo panorama religioso, até aqui desconhecido. Deste modo, as religiões tradicionalmente estabelecidas, parece que já não respondem aos anseios do homem moderno. Dos tempos inquisitoriais de “uma só fé e um só rei”, saltámos para as mais diversas formas de religiosidade a preanunciarem tempos novos, na pluralidade de crenças. A prática religiosa começa assim a manifestar-se dos mais variados modos, desde que o poder político proporcione a total liberdade religiosa, marca da modernidade democrática.
A construção de uma nova mesquita em Lisboa, na Mouraria, que tanta tinta tem feito correr, é mais uma manifestação do pluralismo religioso com o qual todos temos que aprender a conviver de um modo saudável, apesar de ter sido uma religião com quem, ao longo da nossa história, disputámos tantas guerras sangrentas. Na verdade, a história das religiões ensina-nos que elas não são mais do que diversas visões do mundo e oferecem-nos as respostas mais sublimes encontradas pelo homem para tentar explicar o mistério do existir. Na terra ou, por ventura para além da morte.
O problema do mal, da violência, da morte e da vida, da nossa existência – de onde vimos e para onde vamos – não deixa de se colocar a cada ser humano, ao longo da sua existência.
Haverá um Poder ou uma Lei, vinda de fora do mundo, que possa obrigar o homem a determinar-se na sua vontade, livre e responsável? O destino estará pré-determinado para cada um? Para estas e outras questões existenciais, apareceram as várias religiões com as suas diversas respostas. Cada uma com a sua história, no espaço e no tempo.
Com alguma razão alguém afirmou que a maior invenção do homem terá sido, o descoberto conceito de Deus. Só que este enriquecimento humano tem sido aproveitado e manipulado pelas religiões, não para cultivar o que de melhor o homem tem dentro de si, mas para o pior das suas debilidades, incluindo a conquista de mais poder, sob as mais diversas formas.
Quanto ao cristianismo, na sua essência religiosa, recorrendo à feliz expressão de Eduardo Lourenço, “trata-se de uma crítica radical do poder, pelo amor dos outros e, mais radical ainda, crítica de um Deus-Poder”. O Papa assim o tem pregado e vivido.
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