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Oleiros: Berço de um explorador

José Manuel Maia* - 15/01/2026 - 9:02

Quando comecei a escrever o livro “De Oleiros ao Tibete”, sabia que estava a seguir os passos de um homem excecional, mas não imaginava a profundidade espiritual e humana que encontraria ao longo desta investigação. O Padre António de Andrade, natural de Oleiros, não foi apenas um missionário jesuíta do século XVII, foi um explorador, um pioneiro cultural e o primeiro europeu a chegar ao Tibete, numa época em que esse território era quase lendário para o Ocidente.

Para mim, a sua história representa a síntese entre a fé, a ciência e a aventura — uma viagem física que se transforma, inevitavelmente, numa viagem interior. E foi precisamente isso que procurei recriar neste livro: o diálogo entre o homem e o mistério, entre o missionário e o viajante, entre Oleiros e o mundo.

Escrever sobre António de Andrade é, antes de mais, escrever sobre Oleiros. Foi ali, entre montes e vales, que nasceu um dos homens mais audazes do seu tempo. Oleiros é mais do que um ponto no mapa, é o berço de uma identidade que molda o caráter e a fé.

O século XVII português era um tempo de expansão e de incerteza. Enquanto o Império se debatia entre a glória e a crise, as ordens religiosas — em especial a Companhia de Jesus — assumiam o papel de levar o conhecimento e a fé para os confins do mundo. Foi nesse contexto que António de Andrade se formou, um jovem movido por uma fé inabalável e por uma curiosidade que o levaria muito além das fronteiras conhecidas.

Sempre me impressionou imaginar aquele rapaz de Oleiros a sonhar com terras distantes, guiado apenas pelo impulso do espírito. Talvez tenha sido essa mesma inquietação que o empurrou para uma vida de missão e descoberta.

Antes de chegar ao Tibete, António de Andrade ingressou na Companhia de Jesus, ordem conhecida pela disciplina intelectual, o rigor moral e a dedicação à educação e à missão. Nas suas casas de estudo, os jesuítas preparavam não apenas teólogos, mas verdadeiros embaixadores culturais.

Ao estudar os seus escritos e as cartas da época, percebi como os jesuítas eram, simultaneamente, homens de fé e de ciência. Observavam, descreviam e traduziam o mundo. António de Andrade não foi exceção, viajou não só para converter, mas para compreender.

No meu processo de escrita, tentei captar essa dualidade. O missionário que parte com o crucifixo na mão e o estudioso que leva um caderno de notas. Ambos coexistem no mesmo homem. E é essa tensão entre fé e razão, entre espírito e observação, que dá força à narrativa.

A viagem de António de Andrade começou em Lisboa, provavelmente cheia de incerteza e esperança. O caminho para a Índia era longo e perigoso, atravessando oceanos que, à época, ainda escondiam os seus próprios mistérios. O destino inicial era Goa, o coração da presença portuguesa no Oriente, onde a Companhia de Jesus mantinha uma forte estrutura missionária.

Ao descrever esta etapa, senti quase fisicamente o peso da viagem. Imaginar meses a fio no mar, as doenças, os temporais, os medos e a fé que sustentava cada passo. Chegar a Goa significava atingir o mundo conhecido — mas o objetivo de António era ir mais além.

Foi em Goa que ele ouviu falar de reinos distantes, escondidos entre montanhas inacessíveis – o misterioso reino de Tsaparang, no Tibete ocidental. Pouco se sabia sobre aquele lugar. Era descrito como uma terra fria, de espiritualidade intensa, isolada do resto do mundo. Para um homem como António de Andrade, essa informação não era um obstáculo – era um desafio.

Ao escrever sobre a travessia dos Himalaias, percebi que estava a lidar com um dos momentos mais épicos e simbólicos da história missionária portuguesa. António de Andrade, acompanhado de outro jesuíta, o Frei Manuel Marques, natural de Mação, atravessou montanhas geladas, enfrentou avalanches, fome, exaustão e a altitude extrema – sem mapas, sem instrumentos modernos, apenas com fé e determinação.

Reler as suas cartas e descrições é confrontar-se com o heroísmo silencioso. Ele próprio descreve a viagem como “um caminho de milagres e martírios”, e não é difícil perceber porquê. As temperaturas baixas, a falta de oxigénio e a escassez de alimentos tornaram a travessia uma verdadeira prova de resistência humana.

Enquanto escrevia estas páginas, senti que o Padre António de Andrade era mais do que um missionário, era um pioneiro do espírito humano. A sua viagem é, em certo sentido, uma metáfora da busca interior que todos fazemos quando enfrentamos o desconhecido.

Chegar ao Tibete, no verão de 1624, foi o culminar de uma epopeia e o início de um novo desafio. António de Andrade foi recebido com curiosidade e respeito pelos governantes locais de Tsaparang, no reino de Guge. Pela primeira vez, um europeu entrava naquele território sagrado, descrito como “o tecto do mundo”.

Nos seus relatos, Andrade descreve templos, rituais, costumes e práticas religiosas com um olhar de espanto e admiração. Embora fiel à sua missão cristã, ele demonstra uma atitude de respeito e observação rara para a época. Essa sensibilidade, que procurei transmitir no livro, é o que o distingue de outros viajantes e missionários do seu tempo.

Para mim, o encontro de António com o Tibete é o momento em que o missionário se torna também antropólogo, historiador e cronista. As suas descrições constituem o primeiro testemunho europeu sobre a vida tibetana, e revelam um homem que, mesmo distante da sua pátria, continuava profundamente humano.

Ao longo da sua missão no Tibete, António de Andrade fundou uma pequena comunidade cristã, traduziu textos, ensinou, observou e escreveu. Mas mais do que converter, ele quis compreender. E é essa dimensão de diálogo que, séculos depois, continua a inspirar-me.

Na escrita deste livro, percebi que a fé de António não era cega, mas sim curiosa, dialogante. Ele não via o “outro” como inimigo, mas como interlocutor. Essa postura, profundamente moderna, faz dele uma figura universal. Num mundo cada vez mais dividido, a sua história ensina-nos que a fé e a ciência, a cultura e a diferença, podem coexistir em harmonia.

O regresso de António à Índia foi discreto, marcado pelo cansaço e pela doença. A missão tibetana não sobreviveu muito tempo após a sua partida, vítima de conflitos políticos e pressões locais. Mas o legado estava lançado. As suas cartas circularam pela Europa, despertando o interesse de geógrafos, missionários e curiosos.

Ao reler esses textos, senti o peso do silêncio que se seguiu. A aventura terminou, mas a memória permaneceu. António de Andrade morreu em Goa, em 1634, mas o seu nome ficou gravado entre os grandes exploradores e humanistas portugueses

Escrever “De Oleiros ao Tibete” foi para mim um reencontro com a essência do que é ser português: a curiosidade, o desejo de conhecer o mundo, a coragem de partir e o dom de dialogar com a diferença. O Padre António de Andrade simboliza tudo isso.

Enquanto escrevia, senti que a sua viagem era também a minha. Cada documento descoberto, cada carta traduzida, cada imagem mental das montanhas ou das aldeias tibetanas tornava-se uma viagem interior. Percebi que contar a história de António é, de certa forma, refletir sobre a própria condição humana: a busca incessante pelo sentido, pela fé e pela verdade.

Hoje, ao olhar para Oleiros e imaginar aquele jovem que um dia sonhou com o Tibete, sinto que a distância entre os dois lugares é menos geográfica do que espiritual. São os dois polos de uma mesma travessia – o início e o regresso, a raiz e o horizonte.

O Padre António de Andrade ensinou-me, e espero que ensine também aos leitores, que as grandes viagens não se medem em quilómetros, mas em transformação. E que o verdadeiro destino de quem parte é o reencontro consigo mesmo.

Ao terminar este livro, senti que a história de António de Andrade não pertence apenas ao passado – pertence à memória viva de um povo que sempre acreditou que o mundo é um lugar a descobrir. Escrever sobre ele foi, acima de tudo, um ato de gratidão – por Oleiros, pelo Tibete, e por todos os caminhos que ligam o homem ao desconhecido.

 

*Docente da Unidade Politécnica do Instituto Universitário Militar

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