A nossa saúde não acaba na porta de casa, do centro de saúde ou do hospital. Continua no parque onde passeamos, na água que corre no rio, no cão que nos recebe ao fim do dia, na alface da horta do vizinho, no iogurte que bebemos à pressa, no vento que sopra e entra em assobio pela janela ou no escorrega do recreio onde as crianças saltam e riem divertidas. Tudo está ligado. É esta a ideia simples e poderosa de One Health - Uma Só Saúde: pessoas, animais e ambiente fazem parte do mesmo sistema. Quando uma peça falha, o resto vacila.
Já entre os séculos V-IV a.C., o Corpus Hipocrático, onde se inclui Ares, Águas e Lugares dizia que o ar, a água, o solo e os hábitos influenciam a saúde. A autoria não é certa, mas a ideia é clara: quando não se pode evitar o que desequilibra, ajusta-se a dieta para restaurar a harmonia. Daqui advém também o conceito, tantas vezes associada a Hipócrates, de que “toda a doença começa no intestino”, hoje iluminada pela ciência da microbiota.
A microbiota é a ponte viva entre o mundo lá fora e o nosso corpo cá dentro. No intestino, triliões de micróbios fermentam fibras, treinam o sistema imunitário e produzem moléculas que acalmam a inflamação e até influenciam a saúde mental. No solo e na água, outras comunidades reciclam nutrientes, depuram poluentes e ajudam a fixar carbono. Sem este tecido invisível não haveria pão de fermentação lenta, queijos, iogurtes, chucrute; e muitos fármacos nasceram de pistas que a natureza microbiana deixou. A penicilina nasceu do fungo Penicillium e mudou a medicina; logo depois, a estreptomicina vinda de micróbios do solo abriu caminho contra a tuberculose; da mesma “farmácia da natureza” chegaram as estatinas para o colesterol. Tudo ecos do poder dos microrganismos, os mesmos que, quando bem tratados, protegem o nosso intestino.
A ciência mostra que a chamada “teoria da higiene” tem custos: quanto mais nos afastamos da natureza e esterilizamos o quotidiano, mais pobre fica a microbiota, aumentando o risco de alergias, asma e outras doenças inflamatórias. Crianças que crescem em zonas rurais e contacto regular com quintas, animais, palha e solo tendem a desenvolver uma microbiota mais rica e protetora. E mais imunidade. Não é “sujidade”, é diversidade e o corpo agradece.
Quando maltratamos estas “cidades” de micróbios, pagamos caro. A resistência aos antibióticos cresce sempre que tomamos comprimidos “porque sim” ou os usamos sem critério em animais e agricultura; as bactérias viajam entre hospitais, explorações, águas residuais e regressam a nós. As alterações climáticas também mexem com este equilíbrio: calor e eventos extremos empurram mosquitos e carraças para novas zonas, e a perda de habitats aproxima vida selvagem de pessoas e animais domésticos, facilitando “saltos” de vírus e bactérias. Solos pobres e quimicamente dependentes perdem vida microbiana, retêm pior a água e dão alimentos menos ricos; solos vivos funcionam como esponjas de água, nutrientes e carbono e no final alimentam melhor a nossa própria microbiota intestinal. “Ares, águas e lugares” voltam a fazer sentido: um intestino saudável começa num ecossistema saudável.
As Nações Unidas puxam por esta visão: a Agenda 2030 lembra que saúde, clima, água, solo e alimentação caminham juntos; e a Quadripartite* trabalha para ligar laboratórios humanos e veterinários, proteger ecossistemas e transformar ciência em prevenção. Em Portugal, 2024 trouxe o SIVIZ: um projeto que envolve autoridades competentes em matéria de saúde humana (DGS) e animal (DGAV) e os laboratórios nacionais de referência (INSA e INIAV), com o objetivo de estabelecer um sistema nacional integrado e inovador de vigilância de zoonoses. Ganha-se tempo, salvam-se vidas. É Uma Só Saúde em ação.
Precisamos de dar um passo atrás: respirar fundo, voltar às estações e aos alimentos do seu tempo, rodear-nos do que é natural. Melhor educar o palato para o menos doce do que encher a despensa de adoçantes sintéticos. O açúcar é um problema, sim, mas é mais prudente reduzir do que trocar por soluções sem o selo de segurança de séculos de uso. A evidência científica mais recente deixa um aviso: alguns adoçantes não calóricos parecem alterar a microbiota intestinal (e.g. redução de bactérias benéficas como Bifidobacterium e Lactobacillus) e, apesar de em humanos os efeitos parecerem ténues e inconsistentes, recomenda-se prudência e mais investigação. Precisamos de reconciliar-nos com a fruta e os legumes feios. Menos artifício, mais natureza; menos desperdício, mais sazonalidade. É assim que cuidamos do intestino e do território ao mesmo tempo.
A cidade pode ser parte da cura: espaços verdes que refrescam e nos devolvem micróbios benéficos; hortas escolares e compostagem que dão vida ao solo e ciência às crianças; redes de água e saneamento robustas que nos protegem; cantinas e mercados que valorizam o local e a época, ligando-nos a agricultores que regeneram a terra e, com ela, a microbiota de todos. Em casa, o caminho é direto: mais legumes, leguminosas, fruta da época e fermentados; mais tempo ao ar livre, menos desperdício; antibióticos só quando o médico prescreve.
One Health não diminui a medicina moderna: amplia-a. O médico prudente, o veterinário que vacina, o agricultor que regenera o solo, o professor que monta uma horta, o técnico que vigia a água, a autarquia que planta árvores: todos puxam pelo mesmo fio. É o fio que os autores do Corpus Hipocrático vislumbraram e que a microbiota hoje ilumina: a saúde é uma rede de relações onde o intestino é um nó central. Recordo as palavras da geógrafa e professora catedrática Maria José Roxo, proferidas noutro contexto mas inteiramente aplicáveis aqui: “O planeta vai continuar aqui a equilibrar-se; temos é de salvar a Humanidade e isso pressupõe uma mudança de paradigma”.
* Quadripartite: parceria entre quatro organizações das Nações Unidas que trabalham juntas na abordagem de "Uma Só Saúde" (One Health): a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH).
** Investigadora do CATAA - Centro de Apoio Tecnológico Agro Alimentar de Castelo Branco