Na linguagem comum, como antes observei, o dinheiro frequentemente significa riqueza; e a ambiguidade da expressão tornou-nos esta ideia popular tão familiar que mesmo os que estão convencidos do seu caráter absurdo estão prontos a esquecer os próprios princípios e, nas suas reflexões, tomá-la por garantida, como certa e inegável verdade.” (tradução livre de Adam Smith, 1776, An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, 1, pp. 416-417).
Consta que certo tratador de macacos resolveu um dia fazer uma experiência. No meio da jaula colocou um escadote e, no topo do escadote, um cacho de bananas. Ora, o mais afoito dos seis enjaulados não tardou em trepar por ali acima, mas, ao fazê-lo, foi projetado por um jacto de água que o encharcou, bem como à restante comitiva.
A cena repetiu-se por mais três ou quatro vezes, até que os ânimos serenaram e as bananas lá ficaram na expectativa. Só que os monos iam sendo progressivamente substituídos, um a um, e todos os recém-chegados se aprontavam a repetir o gesto, fazendo-se à correspondente recompensa.
A partir de dado momento, porém, eram já os companheiros que os dissuadiam, parece que com os mais persuasivos meios ao alcance das macacais criaturas. Ao ponto de o banho se ter tornado supérfluo, sem que, por isso, as bananas deixassem de ficar incólumes.
E, à nona ou à décima rodada, já por ali não havia símio que tivesse saboreado a banhoca. Mas, logo que um novato ensaiava a escalada, era certo e sabido que os outros lhe caiam em cima.
Não faço a mínima ideia se foi desde então que introduzimos na nossa linguagem corrente o termo macaquear. Mas que a palavra existe, existe. E, se existe, por alguma razão há de ser! Estou mesmo disposto a afiançar que exista pelas melhores razões. Ou seja, estou prontinho para macaquear.
Vem isto a propósito das já referidas mudanças na natureza do dinheiro e de como elas estão relacionadas com a natureza das dívidas e com as mudanças históricas na respetiva apreciação moral (DEBITA NOSTRA XXXVIII), independentemente da sempre objetiva mas penosa dependência dos devedores em relação aos credores.
E também a propósito persistência com que tendemos a justificar o que existe, uma vez que, como dizem os sociólogos, tudo o que existe acaba por gerar a sua própria necessidade. Mas, sobretudo, a propósito da facilidade com que para essa justificação convocamos os clássicos, ao ponto de parecer que nos dá muito jeito aproveitarmo-nos da sua autoridade ou, pior ainda, conformá-los com a nossa conformação.
É evidente que A. Smith não confundia dinheiro com riqueza, chegando a dizer que “o dinheiro faz sem dúvida sempre parte do capital nacional; mas, (…) não faz geralmente senão uma pequena parte e sempre a menos lucrativa parte dele” (pp. 406). Atrever-me-ia mesmo a dizer que nem sequer lhe passava pela cabeça a existência de um sistema financeiro autónomo da atividade económica. Mas isso é já para uma próxima oportunidade.