À medida que as tensões internacionais atingem níveis críticos, a Europa confronta-se com a fragilidade da sua segurança num mundo cada vez mais volátil. Autonomia ou dependência: este dilema estratégico do continente ganhou contornos dramáticos com a eclosão do conflito armado direto no Irão.
A invasão russa da Ucrânia já havia exposto a vulnerabilidade europeia face à coerção militar. Contudo, o conflito iniciado a 28 de fevereiro entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, com ataques coordenados representa um novo alerta estratégico de proporções regionais e globais.
Bem sabemos que estes eventos aceleraram a mudança de paradigma na defesa europeia. Países como Alemanha e a França continuam a aumentar os seus orçamentos militares, reconhecendo que a segurança exige capacidades próprias. Também a corrida europeia ao armamento serve para mitigar dependência face a uma escalada no Médio Oriente que ameaça rotas energéticas vitais e pode gerar ondas migratórias e inflação energética.
Apesar da NATO permanecer o pilar central da defesa europeia, os países do Leste europeu alertam para os riscos do enfraquecimento do compromisso transatlântico, enquanto as nações do Oeste defendem maior capacidade própria, especialmente perante a imprevisibilidade da política externa norte-americana.
Relativamente a Portugal, a sua posição no Atlântico Norte e a proximidade ao Mediterrâneo tornam-no sensível a perturbações na segurança marítima, rotas energéticas e possíveis ameaças assimétricas. O país beneficia da defesa coletiva europeia e da NATO, mas o conflito no Irão reforça a necessidade de contribuir ativamente para uma Europa mais autónoma, sem comprometer as relações transatlânticas essenciais.
A resposta não é binária. Autonomia não equivale a isolacionismo, nem dependência a fraqueza. O equilíbrio exige: capacidades militares próprias reforçadas (incluindo defesa antimíssil e naval); cooperação multinacional mais integrada na UE (PESCO e fundos de defesa); e diplomacia ativa para contenção do conflito e diversificação energética (reduzindo dependência do Golfo).
A paz europeia sustenta-se cada vez menos na boa vontade e mais na credibilidade da dissuasão, na capacidade de decisão autónoma e na clareza coletiva face a ameaças multifacetadas da Rússia e do Irão. Com o Médio Oriente em chamas e a energia em crise, o equilíbrio delicado definirá se a Europa se afirma como ator estratégico global ou permanece vulnerável e dependente de dinâmicas decididas noutros continentes.
A urgência é máxima! A Europa precisa agir agora para não ser apenas espectadora de um mundo em convulsão.
*EuroDefense-Portugal, docente da UP do Instituto Universitário Militar