Há um silêncio estranho que se instalou em muitas das nossas localidades. Não é o silêncio das aldeias despovoadas nem o das ruas numa tarde de verão. É um silêncio mais profundo: o do afastamento entre as pessoas. Vivemos lado a lado, mas conhecemo-nos cada vez menos. Cruzamo-nos no supermercado, na farmácia ou à porta da escola, mas raramente paramos para conversar. Neste contexto, o poder local enfrenta um dos maiores desafios do nosso tempo: voltar a criar comunidade.
Esta reflexão surge a propósito do Viv’ Aldeias, um projeto desenvolvido sob o lema “Mais que vizinhos, somos comunidade”. A iniciativa enquadrou o 1.º Encontro da União de Freguesias de Juncal do Campo, Freixial do Campo, Barbaído, Chão-da-Vã e Camões, realizado no largo de festas de Barbaído. Trata-se de um projeto com continuidade, que inclui outras iniciativas, como um passeio ao Alentejo para conhecer património local.
À primeira vista, uma festa entre aldeias ou um passeio podem parecer atividades simples. No entanto, tocam aspetos muito profundos da vida democrática e comunitária. Quando uma junta de freguesia promove um encontro que mobiliza centenas de pessoas, está a exercer uma das dimensões mais nobres do poder local: não apenas gerir infraestruturas, emitir pareceres ou tratar de questões administrativas, mas fortalecer os laços que fazem de um território uma verdadeira comunidade. O poder local não se resume à administração; é também uma forma de construção de cidadania.
Dir-se-á que, durante o Estado Novo, também existiam iniciativas locais de convívio. É verdade que havia estruturas locais e festividades, mas estas encontravam-se fortemente subordinadas ao poder central e sem verdadeira autonomia política. Os encontros serviam sobretudo para preservar tradições, celebrar festas ou promover a convivência social — sempre sob vigilância, não fosse o diabo torcê-las. Não eram encarados como espaços de participação cidadã nem de debate de ideias.
A importância destas iniciativas torna-se ainda mais evidente numa época marcada por paradoxos. Nunca foi tão fácil comunicar à distância e, no entanto, muitas comunidades enfrentam isolamento, envelhecimento demográfico e perda de espaços de encontro. Nas aldeias, o desaparecimento de cafés, escolas, associações e serviços públicos reduziu as oportunidades de convivência espontânea. Por isso, eventos que juntam pessoas de diferentes lugares ganham uma relevância que ultrapassa o mero entretenimento: criam capital social, reforçam a identidade coletiva e favorecem a participação cívica.
Pode até dizer-se que uma festa entre aldeias é uma pequena metáfora da democracia local. O poder local possui uma vantagem que nenhum governo central consegue replicar: a proximidade. Contudo, enfrenta desafios cada vez maiores, como o afastamento dos cidadãos da participação cívica, o envelhecimento da população, a falta de tempo das famílias e a crescente substituição da convivência presencial pela interação digital.
As autarquias mais inovadoras estão a evoluir de uma lógica centrada na prestação de serviços para uma lógica de facilitação de comunidades. Não basta emitir licenças, recolher resíduos ou reparar passeios. É igualmente necessário criar oportunidades para que os cidadãos se encontrem, colaborem e reforcem o seu sentimento de pertença.
No fim de contas, governar uma freguesia ou um município não é apenas gerir espaços. É criar razões para que as pessoas se encontrem neles.
A questão essencial é esta: que comunidades queremos deixar às próximas gerações? Lugares onde cada um vive fechado na sua rotina ou territórios onde persistem a entreajuda, o convívio e o sentido de pertença?