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Retrato de um país (2): Inverter o desalento que paira no ar

Florentino Beirão - 11/05/2023 - 10:11

Para onde caminha o nosso país? Uma questão difícil para a qual não se encontra uma fácil resposta. As dificuldades com que nos confrontamos têm deixado muitos, à beira de um ataque de nervos.
Pessoas sem casa, doentes sem consulta, alunos sem aulas, justiça sem celeridade, muitos sem transportes urbanos ou fluviais, pessoas sem casa, jovens sem trabalho e a emigrarem, imigrantes sem integração, reformados sem dignas reformas, corrupção sem fim à vista, salários baixos e impostos elevados e falta de capital para alavancar a nossa produtividade. Para completar este pesado clima, já só nos faltava o recente desentendimento entre o primeiro - ministro e o Presidente da República, com famigerado caso Galamba.
Tudo isto acontece enquanto decorre uma interminável guerra na Europa e uma inflação que tarda a descer. Situação complexa, capaz de provocar uma tempestade perfeita. O Governo, incapaz de dar resposta célere a todos estes problemas, lá vai fazendo o que pode, apoiado num PRR que vai avançando muito lentamente, dada as dificuldades na sua implementação.
Sem grande rasgo nas reformas de que o país carece, a passo de caracol, lá vamos navegando à vista, metidos num barco carregado de dívida e dúvidas, quanto ao futuro.
Com salários baixos, a sermos ultrapassados na riqueza por quase todos os países da UE, vamos vegetando à espera de melhores dias. A esperança, em muitos sectores tem dado lugar à desesperança, como no caso da luta dos professores a prolongar-se sem um feliz fim à vista. É verdade que o Governo já cedeu em algumas das reivindicações, mas falta o toque final para um satisfatório entendimento. Alunos e famílias agradecem também a resolução do impasse entre as partes.
Como nos revelam as recentes sondagens, este clima económico e social débil em que vegetamos é propício ao aparecimento de partidos ou grupos organizados, para cavalgarem a onda da contestação ao poder democrático em que hoje, felizmente, ainda vivemos. Ameaçado por promessas vãs, os cidadãos descontentes podem ser tentados a cair na tentação de duvidar da democracia e agarrar-se às vãs utopias messiânicas. Pelas amargas experiências do salazarismo, trumpismo, bolsonarismo e outros tais que temos experienciado, sabemos bem que a democracia, embora sempre imperfeita, é ainda o melhor regime que garante o supremo dom da liberdade.
Embora as democracias resistam mal aos ciclos de pouca abundância, contudo têm permitido os melhores índices de qualidade de vida, infelizmente, não para todos.
O cancro da ganância e a corrupção de uns tantos têm dificultado que a riqueza que é de todos tenha sido arrebatada só por alguns. Os casos da TAP e do Novo Banco entre outros, aí estão para demonstrar os que são verdadeiramente amantes da democracia e os que dela se têm aproveitado, para encherem os seus bolsos, com o dinheiro que é subtraído, sobretudo, aos mais necessitados. Perante esta realidade, o cidadão comum percepciona que, se nada acontecer a quem rouba o país, com fuga aos impostos e outras tramóias, não haverá Paz e Justiça Social no nosso país.
As numerosas greves diárias que têm proliferado em muitos sectores da nossa sociedade são uma prova de que o país está doente e incrédulo na sua cura. Os protestos são assim um sintoma de mal - estar generalizado e que se têm traduzido numa baixa do Governo maioritários do PS, em recentes sondagens e ainda numa subida das forças radicais à direita. A subida rápida do Partido Chega é bem um dos sintomas de uma situação algo perigosa para a nossa democracia.
Os protestos a que hoje assistimos, quanto a nós, têm muito a ver com a grave situação da substancial perda do poder de compra, provocado pala subida da inflação e com os baixos salários praticados.
Crise social que abrange não só Portugal, como uma boa parte dos países democráticos da UE. Um descontentamento geral manifestado nas numerosas greves que se vão multiplicando por todo o lado, devem levar os decisores políticos a tomarem amplas medidas reformadoras que invertam o descontentamento geral dos cidadãos. Só assim se evita o virar de costas à democracia e a uma corrida cega, atrás dos populismos infantis e inconsequentes. Deste modo, o acentuado desalento que paira no ar pode ir dando lugar a caminhos novos mais auspiciosos de que tanto necessitamos.

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