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Retrato de um país sonolento (2). O desalento paira no ar

Florentino Beirão - 25/05/2023 - 10:17

Para onde caminha o nosso país? Uma questão difícil para a qual não se tem encontrado uma resposta eficaz e rápida. As dificuldades com as quais nos confrontamos têm deixado muita boa gente, à beira de um aflitivo ataque de nervos.
Pessoas sem casa, doentes sem consulta, alunos sem aulas, justiça nas calminhas, muitos sem transportes urbanos ou fluviais, jovens sem trabalho e a emigrarem, imigrantes sem integração, reformados sem dignas reformas, corrupção sem fim à vista, salários baixos e impostos elevados e falta de capital para alavancar a nossa produtividade. Para completar este pesado clima, já só nos faltava o recente desentendimento entre o primeiro - ministro e o Presidente da República, com o famigerado caso Galamba.
Tudo isto acontece enquanto decorre uma interminável guerra na Ucrânia e uma inflação que tarda em descer. Situação complexa, capaz de provocar uma perfeita tempestade de nervos. O Governo, incapaz de dar resposta célere aos múltiplos problemas, lá vai fazendo o que pode, ajudado por um PRR que lentamente vai avançando, dadas as dificuldades na sua total implementação.
Sem grande rasgo nas reformas de que o país carece, a passo de caracol, lá vamos navegando à vista, metidos num barco carregado de dívida e dúvidas, quanto ao futuro.
Com salários baixos, a sermos ultrapassados por quase todos os países da UE, vamos vegetando à espera de melhores dias. A esperança, em muitos sectores tem dado lugar à desesperança, como no caso da luta dos professores a prolongar-se sem feliz fim à vista. É verdade que o Governo já cedeu e bem nalgumas das reivindicações, mas falta o toque final para um satisfatório entendimento. Alunos sem aulas e famílias aflitas agradecem a resolução do impasse entre as partes.
Como nos revelam as recentes sondagens, este clima económico e social débil em que vegetamos é propício ao aparecimento de partidos ou grupos organizados, para cavalgarem a onda da contestação ao poder democrático em que hoje, felizmente ainda vivemos. Ameaçado por promessas vãs, os cidadãos descontentes podem ser tentados a cair na tentação de duvidar da democracia e agarrar-se às vãs utopias messiânicas. Pelas amargas experiências do trumpismo, bolsonarismo e outros que tais, sabemos que a democracia embora sempre imperfeita, é ainda o melhor regime que pode garantir o supremo dom da liberdade.
Embora as democracias resistam mal aos ciclos de pouca abundância, contudo têm permitido os melhores índices de qualidade de vida, infelizmente, não para todos.
O cancro da ganância e a corrupção de uns tantos têm dificultado a distribuição da riqueza que é de todos, tenha sido acumulada em algumas bolsas. Os casos da TAP e do Novo Banco entre outros, aí estão para demonstrar os que são verdadeiramente amantes da democracia e os que dela se têm aproveitado, para encherem os seus bolsos, com o dinheiro que é subtraído, sobretudo aos mais necessitados. Perante esta realidade, o cidadão comum percepciona que, se nada acontecer a quem rouba o país, com fuga aos impostos e outras tramóias, não haverá Paz e Justiça Social no nosso país.
As numerosas greves diárias que têm proliferado em muitos sectores da nossa sociedade são uma prova de que o nosso país está doente e incrédulo. Os protestos têm sido assim um sintoma de mal - estar generalizado e que se têm traduzido numa baixa nas sondagens do Governo maioritários do PS, bem como numa subida das forças radicais e da direita. A subida meteórica do partido Chega é bem um dos sintomas de uma situação algo perigosa para a nossa sempre frágil democracia.
Os protestos a que temos assistido, quanto a nós, têm muito a ver com a grave situação da substancial perda do poder de compra de uma grande parte dos portugueses, provocada pala subida da inflação e com os baixos salários.
O descontentamento geral, manifestado nas numerosas greves que se têm multiplicando por todo o lado, devem levar os decisores políticos a tomar amplas e profundas medidas reformadoras que invertam o descontentamento geral dos cidadãos. Só assim se evita o virar de costas à democracia e a uma corrida cega, atrás dos populismos infantis e inconsequentes. Deste modo, o acentuado desalento que paira no ar, pode ir dando lugar a auspiciosos caminhos de esperança de que tanto necessitamos.

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