Jeremias, presidente da Brigada do Reumático, não compreende que, após a revisão do acordo ortográfico, se queiram agora impor regras sobre questões gramaticais de género. - “Na escola do professor Boiadas aprendi que o plural seria escrito e falado no género masculino e não no feminino. Mas, agora dizem que temos que falar e escrever a linguagem neutra”, referia o líder da BR na Biblioteca do Burgo, enquanto folheava o diário da manhã.
- “E o que é isso da escrita neutra?”, perguntou Josefina, 75 anos e aluna da Universidade dos Menos Jovens, confundida com a conversa.
- “É a chamada linguagem binária ou trifásica, ou lá o que é...”, respondeu Ludovino, poeta popular nas horas vagas e mestre da culinária nos minutos ocupados.
- “Como?”, reforçou Josefina.
- “Não podemos escrever no masculino nem no feminino. É assim uma espécie de linguagem que nem é carne nem é peixe, mas também não é vegetariana, nem vegan”, respondeu Jeremias, que ainda confundiu mais a dona Josefina.
- “Por exemplo, não podemos dizer todos, mas sim todes. Mas também não devemos escrever menina ou menino, mas sim menines. De igual modo, não há amigos nem amigas, mas sim amigues”, exemplificou Ludovino.
- “Mas tu sempre falaste assim!”, argumentou Josefina, mais esclarecida com os exemplos. - “Então a liguagem neutra é uma espécie de pronuncia do Burgue?”, questionou de novo.
- “Não se diz Burgue, mas sim Burgo”, reagiu Jeremias.
- “Pois sim. Lá na terra sempre estivemes à frente do nosse tempe. Falávames binário e não sabíames!”, salientou Josefina, que recorda como se fosse hoje as palavras do seu pai no dia em que chumbou no exame da quarta classe: - “filhe um dia ainde te vão dar razão, pois tens uma escrite muite bonite”.
- “Muito à frente, mesmo”, concluiu Jeremias, para quem a linguagem neutra não tem ponta por onde se lhe pegue, nem mesmo com o sotaque do Burgo...
JC