Num dos filmes brasileiros mais aclamados pela crítica, “O Auto da Compadecida” (2000), peça cinematográfica inspirada no livro de Ariano Suassuna, João Grilo e Chicó são dois pobres vigaristas que vão vivendo à custa de pequenas aldrabices e mentiras inócuas.
Enquanto um constrói uma teia de manhas e artimanhas onde se vão ligando as várias personagens deste divertido drama, o outro entretém-nos com estórias fantasiosas para as quais a explicação do narrador acaba sempre por ser um simples “só sei que foi assim”.
Entre estórias e história, este singelo truísmo em jeito de Jacques de la Palisse parece ser o corolário da história de Portugal nos últimos quatro séculos, sobretudo com o desenlace trágico da batalha de Alcácer Quibir, a qual não só nos tirou um rei ainda adolescente, como nos deixou à mercê de Filipe II de Espanha, filho de Carlos V e um dos monarcas mais poderosos do mundo.
Poucos anos depois da batalha que influenciou dramaticamente o futuro do país, o seu maior génio literário, Luís Vaz de Camões, morria sem o devido reconhecimento. Com o tempo, a epopeia extraordinária de Camões obteve a merecida imortalidade, sendo que amanhã se celebra mais um “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”.
O dia 10 de Junho começou por ser o dia do “Santo Anjo da Guarda de Portugal”, ou seja o dia de São Miguel Arcanjo, o Anjo protetor da nação. Curiosamente, Luís Vaz de Camões morreu nesse mesmo dia, poucos anos antes de a coroa portuguesa ser erguida pela dinastia dos Habsburgo.
Apesar de ser um dia entronizado pelo regime republicano de 1910 como celebração civil mais do que religiosa, foi apenas a partir de 1933 que este dia ganhou destaque enquanto celebração coletiva da história portuguesa, marcadamente propagandística e nacionalista tendo em conta os ideais do regime da época.
Com o advento da democracia este dia passou a ser o “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, celebrando-se igualmente a presença da Língua Portuguesa pelo mundo, sendo de extrema relevância o facto de este ano as celebrações terem lugar em Paris, onde reside uma das maiores comunidades portuguesas no estrangeiro.
Contudo, e apesar das várias alterações de regime, o 10 de Junho parece celebrar uma história que nunca se repetirá, evocando uma época que o país jamais recuperará, como se a sombra dos Habsburgo pairasse sobre o país desde 1578, ano da tragédia de Alcácer Quibir e dois anos antes da morte de Camões, marcando o início do fim da época dourada lusitana.
Mas ao contrário do que os “velhos do Restelo” teimam em recordar, Portugal continua a dar novos mundos ao mundo em áreas da ciência onde somos pioneiros, nomeadamente nas energias renováveis, na nanotecnologia e na exploração dos oceanos, beneficiando de uma das maiores zonas económicas exclusivas do mundo.
Mais do que contarmos o nosso passado é fundamental projetarmos o nosso futuro num mundo com cada vez menos fronteiras, onde o mais importante não é a dimensão nacional, mas a capacidade de inovar e explorar novos mercados, independentemente das suas especificidades culturais, porque o mundo é cada vez mais uma aldeia global onde não há lugar para nacionalismos estanques. [email protected]